Eu vi uma lagarta se acomodar no canto direito do degrau lá de casa. Chegou sem pressa, arrastando-se lentamente para o grande processo. Escolheu o lugar exato, encolheu-se e silenciou mais ainda – como se fosse possível.
Nós sorrimos, desejamos que ela pudesse voar antes que os gatos interferissem, e eu lembrei que criar asas é uma dança que se faz sozinho.
Alguns dias depois eu noto que não há mais casulo, e um corpo estranho está no chão. (Certamente vieram os gatos.) E o que eu vi foi um retrato nítido, tirado bem perto dos olhos fundos da Vida. Era um corpo de lagarta, com um desenho de asas nascendo. Era o meio do caminho, o entre, o que vem um pouco depois do antes e um pouco antes do depois. Eu vi a fusão, o útero aberto dos bichos. Foi a curiosidade mais linda e mais triste que eu já matei. Era como se fotografassem o momento exato em que um corpo recebesse uma alma, ou uma alma começasse a habitar um corpo.
Como se chama um ser que é metade uma coisa e metade outra? Eu não sei o nome do que eu vi. Eu nem se quer compreendi muito bem. Eu acho que admirei a lagarta pelo seu solo mudo, na difícil tentativa de cumprir a maior tarefa de todas. E eu passei a ver alguma coisa muito forte e muito brava - Uma certa postura de fera – na delicadeza breve das borboletas.