quarta-feira, 24 de julho de 2013

Rua Marcondes Silva, 74.


Escureceu cedo e o amor ruiu, bem na base. Eu esfreguei os olhos pra ter certeza, mas a casa esvaziou diante deles. A casa ficou nua e passou frio. Eu me agasalhei e me despedi sem beijá-la nas faces brancas indignadas pelo súbito abandono. Eu intimamente me desculpei com a casa, e tive pena de nós. Carreguei o resto dos entulhos, fechei as janelas como se fechasse os olhos dela depois de morta.

Confessei minha dor.

Cessei as gotas da torneira.

Me fiz de forte.

E saí.

(Explodi em choro na primeira esquina).

A casa foi ficando gelada, eu fui ficando distante, levei a mão na boca, calei umas frases em vão, desfiz a mala em outras salas, não reconheci ainda nenhum espaço como meu, e você ficou igual.
Seu cabelo não saiu do lugar, você não ruiu junto com a casa. Seu trabalho permaneceu impecável, suas fotos continuaram felizes, suas roupas continuaram cobrindo exatamente a mesma pessoa.

Nem suas piadas mudaram.

Enquanto isso a casa foi sendo coberta de histórias vazias, crescendo como mato por cima de suas antigas memórias. A casa nunca mais soube o que era um amor urgente de teto. A casa nunca mais experimentou a paz de um casal que faz sentido.

Eu passo por ela e finjo que não noto. Não busquei as correspondências, não sei visitar feridas abertas. Mas você ficou igual.

Seu café da manhã continuou perfeitamente completo, suas viagens ainda mais excitantes, suas saudades muito elegantes, incomodadas com o escândalo das minhas. Seu sono permaneceu sagrado, o ritual seguido à risca.

E eu ruí, bem na base. Nas minhas faces pálidas indignadas pelo súbito abandono. Você não as beijou. Você fechou meus olhos como se fossem as janelas depois do dia. Eu me senti nua e passei frio. A nova casa se encheu de entulhos que até hoje não sabem qual o sentido do casal urgente de teto que eu tentei reencontrar. Você calou minhas lágrimas como se fossem torneiras. E continuou igual.

Eu fui ficando gelada. Você levou a mão à boca e bocejou. Leu as últimas notícias e ignorou minha última carta. Ela era uma ferida aberta, quase ilegível. Mais aflita que uma visita atrasada.

A casa ruiu, bem na base. Eu também ruí e explodi na primeira esquina. O Papa chegou ao Brasil, o herdeiro do príncipe nasceu e você continuou igual.