domingo, 9 de outubro de 2011

Quase

Eu vi uma lagarta se acomodar no canto direito do degrau lá de casa. Chegou sem pressa, arrastando-se lentamente para o grande processo. Escolheu o lugar exato, encolheu-se e silenciou mais ainda – como se fosse possível.

Nós sorrimos, desejamos que ela pudesse voar antes que os gatos interferissem, e eu lembrei que criar asas é uma dança que se faz sozinho.

Alguns dias depois eu noto que não há mais casulo, e um corpo estranho está no chão. (Certamente vieram os gatos.) E o que eu vi foi um retrato nítido, tirado bem perto dos olhos fundos da Vida. Era um corpo de lagarta, com um desenho de asas nascendo. Era o meio do caminho, o entre, o que vem um pouco depois do antes e um pouco antes do depois. Eu vi a fusão, o útero aberto dos bichos. Foi a curiosidade mais linda e mais triste que eu já matei. Era como se fotografassem o momento exato em que um corpo recebesse uma alma, ou uma alma começasse a habitar um corpo.

Como se chama um ser que é metade uma coisa e metade outra? Eu não sei o nome do que eu vi. Eu nem se quer compreendi muito bem. Eu acho que admirei a lagarta pelo seu solo mudo, na difícil tentativa de cumprir a maior tarefa de todas. E eu passei a ver alguma coisa muito forte e muito brava - Uma certa postura de fera – na delicadeza breve das borboletas.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Batalha


Mas a sexta-feira é só o prenúncio. Ela é o primeiro cavaleiro que desponta do bando do inimigo. Ela vem abrindo caminho para o golpe fatal do domingo.





(foto: francesca woodman)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Porto Alegre

Porto Alegre tem no ar uma lembrança de praia. Mas você chega bem perto e percebe que é doce. É doce a água, a melodia, o pôr do sol mais horizontal que eu já vi. Acho que vem do Guaíba a doçura de Porto Alegre.
E lá tem o suspiro eterno de Mario Quintana. O ultimo. Batendo como brisa no rosto das pessoas. Logo ao botar os pés na calçada do centro a falta de rima da sua poesia roça com brandura as bochechas de quem chega. E isso deve ser inevitável.
Corta Porto Alegre, de ponta a ponta, uma passarela invisível onde desfilam anjos e misses. Eles, despretensiosos; Elas seguem elegantemente. Isso dá a paz e a beleza desse lugar que me pede um café preto às cinco horas da tarde. Sob a passarela transitam os carros, os ambulantes da feira, os espíritos dos soldados mortos. E tudo, tudo isso é dança, porque lá no sul canta-se quando fala. E não há cidade que se aquiete completamente, em hora alguma do dia, nunca. Lá pela madrugada, às três ou às quatro da manhã, se acontece de morrer um gato no asfalto, virar de lado uma guria na cama, acender um cigarro o boêmio na praça, é dança. É dança porque em algum ponto da zona sul ainda conversam duas amigas adolescentes, e chega pela estrada um filho que retorna ao lar, ou um amante e sua amada. E todos eles falam. Crescem a voz e desmancham no meio, para logo em seguida surpreenderem meus ouvidos paulistas com um novo acento. É assim a música de Porto Alegre, um vôo e um declive; uma onda do mar que eles não têm.
Fora que, se um gaúcho olha bem nos seus olhos e se refere a você como tu, não há escapatória. Porque você é um chamamento disperso; não vai na direção exata da mesma forma que vai o tu, direto e duro como uma flecha.
Eu fui a Porto Alegre e vi as velhas árvores guardando segredos; mudas e trancafiadas, de olhos fechados orgulhosamente por serem detentoras de histórias que ninguém mais viu. As árvores de lá parecem ter mais segredos do que as árvores daqui... Talvez porque desde sempre elas tenham respirado a mesma falta de rima de Mário Quintana. E debaixo de cada árvore dessas eu vi um vulto de casal aos beijos, usando a sombra para refrescar a ardência, porque em Porto Alegre também faz muito calor.
Quase tão antiga quanto às árvores é a arquitetura que cede - com 90% de maturidade e  10% de ciúmes - o espaço para as novas tendências. Mas no fundo também as construções sabem que serão eternamente admiradas por turistas que não têm os olhos acostumados de quem sempre morou por lá; e que serão também sempre muito respeitadas pelos edifícios modernos, absolutamente mais retos e cheio de elevadores, mas que não passam de curumins descobrindo a aldeia.
Porto Alegre tem um porto, e um porto torna qualquer cidade mais generosa. Há mais troca com o mundo, e o movimento das idas e vindas é um estudo ao desapego.
E além de tudo, de toda a vista e de toda aquarela no céu dos finais de tarde, Porto Alegre passou a ser para mim um lugar de amor; Uma grande cama onde se deita e dorme-se até a hora do almoço servido em algum casarão discreto onde vivem avós; Uma sala de bailes e reuniões onde, repentinamente, cruzam-se os olhares de um homem e de uma mulher. E este homem, cuja boca parece ter sido roubada de um dos quadros expostos no salão, canta, sem saber que canta, as palavras que dirige a ela. E a mulher, por sua vez, logo descobre que resistir aos encantos de Porto Alegre seria tão inútil quanto construir um muro para impedir o avanço das águas. Essa mulher é a mesma que muito antes de tal acontecimento, imaginou Porto Alegre como o cenário exato para o repouso do coração.

Essa mulher sou eu.




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Silêncios


...


São
pe
da
ci
nhos
de expectativas
Unsgrudadosnosoutros
a preencher o
t...................e..................m..................p..................o

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sobre o verão e os quatis

Se um dia você notar que a memória me falha, senta ao meu lado e lembra comigo este verão que passa. Quando chegar agosto ou setembro e o cansaço ganhar espaço, chega bem perto de mim e conte no meu ouvido os detalhes: Os homens rindo em completa irmandade; as folhas caindo pelo vento da tarde; o barulho gravíssimo da água na beira da praia.



Fala do percurso alegre entre o verde e a casa; da esquina à esquerda, da esquina à direita; e do cão mais bravo do bairro. E depois lembre comigo o fogo alto no jardim assando infindáveis churrascos gaúchos, quando nos servimos todos no mesmo prato. Canta pra mim a música que toca mais baixa para não despertar as novas crianças da família. Marília, Marina e os gêmeos – os gênios que tudo observam e que diante de tanto, se calam.



Se por acaso eu andar meio esquecida, de tanto trabalho ou pelo avanço da idade, conte-me baixinho sobre cada um desses detalhes. O frescor da areia no caminho das sombras e a ardência insuportável do meio-dia. Chame minha atenção ao falar da porta destrancada para que os amigos transitem sempre em liberdade. E pode falar também da cachaça, da cerveja, do espumante nas taças para as mulheres da casa; dos cigarros de palha para mudar os hálitos dos hábitos de sempre; e dos gemidos abafados da gente.



Se a dureza da cidade voltar a franzir os meus ânimos e enrijecer minha alma, lembra comigo destas férias na praia. O azul claro e abençoado da ilha; os cardumes acelerados; os beijos salgados interrompidos pelas ondas aflitas.



Não me deixe esquecer do ruído bravo da cachoeira, quando meus ouvidos se acostumarem novamente ao massacre sonoro das avenidas. Não me deixe esquecer da velocidade do barco, do tempero dos pratos, do horizonte aberto – tão diferente dos meus prédios altos...



Ah! E não me deixe esquecer dos quatis! Eu quero lembrar para sempre dos quatis! – Aqueles bichos do mato foram o mais perto que eu cheguei de uma vida selvagem...