quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sentei-me de frente para a menina que eu era.
Ela não me viu.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Vi uma vez num casarão antigo do Bairro do Ipiranga, uma família (não sei se era uma família) espalhada pelos cômodos, cada qual tocando sua minúscula caixa de música. Os sons se sobrepunham e nenhum fazia sentido. Outras famílias (não sei se eram famílias) assistiam caladas, e um pai (que nunca foi pai) chorava. As caixas de música mal cabiam nos dedos, e só o fato de segurá-la com tanto apego impedia que qualquer outra melodia fosse escutada por quem tocava. Eu me olhei no espelho da sala de estar e fiquei na dúvida se eu era daquela família (não sei se era uma familia). Fui até a cozinha, fitei com dó uma avó que nunca foi avó e me sentei com ela para um café ao som das solidões dos outros (não sei se elas eram dos outros).

terça-feira, 17 de janeiro de 2017



a música cresce e ninguém escuta o que eu digo
a cena confunde e ninguém vê seus pedaços

partidos

eu descrevo os cortes
os golpes fortes
enquanto sorrio

a música cresce e ninguém escuta o que eu digo
eu mostro minhas unhas
e ninguém imagina

o perigo


*Foto: Claudio Higa


Trilogia das Embarcações

( I ) Iniciação

Se vem a onda
Espalham-se os barcos

Na tempestade
Colidem
Afundam
Ressurgem
Mais tarde

E fortes.

Arestas gastas
Depois de beirar

A morte.

Os barcos se olham
Embriagados
Arrastando galhos
Despedaçados
Feito cabelos
Desordenados

Na cara.

Reúnem-se
humildemente
Na orla já calma
A esbarrar os cascos
No oscilar vivo

Das águas.

Os barcos aceitam
Do oceano
A recuada
O caos
E o descanso

Os barcos
Se reconhecem

Pelo balanço.


( II ) Guia abstrato de meditação

Se chega a noite, os barcos ancoram e fecham as pálpebras das janelas. Silenciam e permitem que pelas longas cordas desçam os habitantes sem forma de seus cascos. Os barcos se aquietam para escutar a certeza da âncora ao penetrar o fundo. Permanecem em estado contemplativo para absorver a sabedoria da água. Revivem, amparados pelo sorrir da Lua e pela presença dos outros barcos, suas tempestades mais duras. Compartilham cicatrizes aparentes e por vezes confundem a água que escorre pelas estruturas com as lágrimas que já inundaram tantas vezes seus espaços. Os barcos recolhem seus olhares ao mais profundo que alcançam, porque é lá que descansa a única bússola possível (e quanto mais íntimos estiverem dela, mais poderão se entregar com convicção ao ressurgimento do dia). Os barcos vasculham seus cantos danificados, reparam estragos, guardam a experiência do vento, da chuva, do calor do meio dia. Os barcos sempre voltam a navegar com mais serenidade em suas velas, mas com menos peso nos compartimentos. Ao deixar que o invisível tripulante desça para experimentar o escuro revelador das águas fundas, o barco compreende mais sobre a superfície. (Mas mantendo-o na superfície, ele nada compreende sobre o profundo). Durante o mergulho, o tripulante reconhece algum indício de sua antiga casa. Ele é capaz de sentir o grande conforto de estar imerso, e então pode subir ao barco com mais pistas sobre o caminho. Os barcos recolhem as âncoras, a longa corda volta ao convés e o dia amanhece ao seu tempo. Lentamente os barcos retomam o movimento.


( III ) Lembrete sobre a lei do eterno processo

Um barco retorna ao porto
Como um homem retorna à casa

Eles não podem trazer no corpo
Todo oceano como bagagem

O porto 
É também
Viagem.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Como se livrar de memórias difícies ou Nota sobre o desapego



Teria sido de muita utilidade na minha infância se tivessem os adultos me falado muito menos sobre o tempo. A consciência sobre o tempo atormentou meu caminho. Uma criança não deve temer a passagem do tempo. E também teria sido de extrema importância que não tivessem me levado para brincar no parque num dia em que tudo era absolutamente triste. A contradição desse dia associou uma mancha de tristeza sobre todos as seguintes alegrias que eu ainda encontraria.

Mas visto que nada disso foi feito e que cresci segurando um fio de pipa prestes a se romper ou escapar, considero que a lição mais bonita teria sido justamente aprender a soltá-lo, e que ainda estou em tempo de fazê-lo.

E como passei anos sendo responsável pela linha, esqueci que ela era apenas um brinquedo. Endureci com medo de endurecer. Porque é isso que o medo faz com a gente: Ele pega a coisa e nos aproxima da coisa. Ninguém tem medo de terremoto no Brasil. A gente tem medo é do que pode de fato nos atingir. Pois eu tinha muito medo de embrutecer diante da rigidez do que vinha. Depois, aprendi: Nada existe de mais poderoso do que a suavidade.