terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Trilogia das Embarcações
( I ) Iniciação
Se vem a onda
Espalham-se os barcos
Na tempestade
Colidem
Afundam
Ressurgem
Mais tarde
E fortes.
Arestas gastas
Depois de beirar
A morte.
Os barcos se olham
Embriagados
Arrastando galhos
Despedaçados
Feito cabelos
Desordenados
Na cara.
Reúnem-se
humildemente
Na orla já calma
A esbarrar os cascos
No oscilar vivo
Das águas.
Os barcos aceitam
Do oceano
A recuada
O caos
E o descanso
Os barcos
Se reconhecem
Pelo balanço.
( II ) Guia abstrato de meditação
Se vem a onda
Espalham-se os barcos
Na tempestade
Colidem
Afundam
Ressurgem
Mais tarde
E fortes.
Arestas gastas
Depois de beirar
A morte.
Os barcos se olham
Embriagados
Arrastando galhos
Despedaçados
Feito cabelos
Desordenados
Na cara.
Reúnem-se
humildemente
Na orla já calma
A esbarrar os cascos
No oscilar vivo
Das águas.
Os barcos aceitam
Do oceano
A recuada
O caos
E o descanso
Os barcos
Se reconhecem
Pelo balanço.
( II ) Guia abstrato de meditação
Se chega a noite, os barcos ancoram e fecham as pálpebras das janelas. Silenciam e permitem que pelas longas cordas desçam os habitantes sem forma de seus cascos. Os barcos se aquietam para escutar a certeza da âncora ao penetrar o fundo. Permanecem em estado contemplativo para absorver a sabedoria da água. Revivem, amparados pelo sorrir da Lua e pela presença dos outros barcos, suas tempestades mais duras. Compartilham cicatrizes aparentes e por vezes confundem a água que escorre pelas estruturas com as lágrimas que já inundaram tantas vezes seus espaços. Os barcos recolhem seus olhares ao mais profundo que alcançam, porque é lá que descansa a única bússola possível (e quanto mais íntimos estiverem dela, mais poderão se entregar com convicção ao ressurgimento do dia). Os barcos vasculham seus cantos danificados, reparam estragos, guardam a experiência do vento, da chuva, do calor do meio dia. Os barcos sempre voltam a navegar com mais serenidade em suas velas, mas com menos peso nos compartimentos. Ao deixar que o invisível tripulante desça para experimentar o escuro revelador das águas fundas, o barco compreende mais sobre a superfície. (Mas mantendo-o na superfície, ele nada compreende sobre o profundo). Durante o mergulho, o tripulante reconhece algum indício de sua antiga casa. Ele é capaz de sentir o grande conforto de estar imerso, e então pode subir ao barco com mais pistas sobre o caminho. Os barcos recolhem as âncoras, a longa corda volta ao convés e o dia amanhece ao seu tempo. Lentamente os barcos retomam o movimento.
( III ) Lembrete sobre a lei do eterno processo
Um barco retorna ao porto
Como um homem retorna à casa
Eles não podem trazer no corpo
Todo oceano como bagagem
O porto
É também
Viagem.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Como se livrar de memórias difícies ou Nota sobre o desapego
Teria sido de muita utilidade na
minha infância se tivessem os adultos me falado muito menos sobre o tempo. A
consciência sobre o tempo atormentou meu caminho. Uma criança não deve temer a
passagem do tempo. E também teria sido de extrema importância que não tivessem
me levado para brincar no parque num dia em que tudo era absolutamente triste.
A contradição desse dia associou uma mancha de tristeza sobre todos as seguintes alegrias que eu ainda encontraria.
Mas visto que nada disso foi
feito e que cresci segurando um fio de pipa prestes a se romper ou escapar,
considero que a lição mais bonita teria sido justamente aprender a soltá-lo, e
que ainda estou em tempo de fazê-lo.
E como passei anos sendo
responsável pela linha, esqueci que ela era apenas um brinquedo. Endureci com
medo de endurecer. Porque é isso que o medo faz com a gente: Ele pega a coisa e
nos aproxima da coisa. Ninguém tem medo de terremoto no Brasil. A gente tem medo
é do que pode de fato nos atingir. Pois eu tinha muito medo de embrutecer diante da rigidez do que
vinha. Depois, aprendi: Nada existe de mais poderoso do que a suavidade.
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