terça-feira, 2 de outubro de 2012

Conto breve sobre a morte



Hoje o café está muito amargo, Ricardo. Acordei indisposta e feia – espero que não se importe.

Levantei várias vezes durante a noite e voltei a me deitar um pouco longe de você. Não quis atrapalhar ainda mais seu percurso. Eu tentei driblar meu mal estar com pensamentos esdrúxulos, mas a superficialidade nunca perdura. O superficial é sempre muito rápido.

Você chegou a notar a luz da sala acesa? Eu sei que a claridade te atrapalha o sono... Mas a gente é diferente, e a escuridão me apavora. Desculpe.

Aliás, hoje a manhã está muito escura. O café está amargo e a manhã está escura, Ricardo. Não é estranho?

Diga alguma coisa. Seu silêncio me dá calafrios. Eu estou me observando de fora e lembrando daquela nossa última planta que morreu. Aquela planta que não tinha nome. Eu hoje estou parecida com ela. Uns galhos secos e pequenos. Há um resto de vermelho meio desbotado nas pontas das últimas folhas. Eu me sinto murcha, Ricardo.

Você está me olhando com pena e ternura, mas continua calado. Eu espero que não vá embora. Não vá embora justo hoje que a casa está tão fria.

A casa está fria, a manhã está escura e o café está muito amargo.

Eu estou morrendo, Ricardo?
Eu sempre acho que estou. Mas normalmente você mede meu pulso, e então eu percebo que ainda estou viva.

Eu sei, hoje você está muito ocupado e a Amanda está te irritando. Não há tempo para crises de pânico, eu entendo. A Amanda deveria ser mais útil.

Eu também tenho um longo dia pela frente, Ricardo.  Mande-me alguma palavra de amor pra que eu me sinta melhor, por favor. Eu estou magra. Minhas costelas estão à mostra.

Aliás, hoje meus ossos estão sobressaindo à carne. Reparando bem, hoje eu estou esquálida, a casa está fria, a manhã está escura e o café está muito amargo.

Justo o café, que era sempre tão doce.

Eu estou morrendo, Ricardo?