quarta-feira, 17 de abril de 2019

Carta ao Infinito

Aqui, vinte e uma horas e onze minutos, noite no Oceano Atlântico, eu imagino em que mar distante você já se encontra, e em que forma, e em como estará seu coração, assim como o meu que parece suspenso desde que você foi embora. É possível continuar existindo com o coração parado no tempo, você sabia, Meu Amor? Eu estou. Eu estou existindo.

Aqui, vinte e uma horas e catorze minutos, eu me pergunto em que tempo você está porque tenho a impressão que rapidamente você se deslocou ao futuro enquanto eu permaneci na lentidão estranha do presente quando ele dói. Gostaria de estar cruzando com você nos meus braços, na velocidade da luz, os sistemas todos, os mundos que não conheço, mil e uma vezes ao infinito, porque sei que agora você pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas eu só posso estar em um.

Eu só posso estar aqui.
São vinte e uma horas e vinte e dois minutos e eu imaginei mais uma vez o seu rosto bem perto do meu. Em que momento foi que nos separamos exatamente, Meu Amor? Foi no sobressalto do meu pesadelo, quando acordei com meu próprio pavor e me vi em pé no meio da sala sem saber o por quê? E eu ainda não posso saber.

Você chegou a escutar minha voz te chamando, Meu Amor? Eu chamei você de Meu Amor. Eu queria que você soubesse que eu andava com o cuidado de quem caminha sobre o gelo enquanto você se apoiava sobre mim.

Aqui na Terra, às dez horas e dez minutos, eu lamento não ter tido tempo de te mostrar a Lua quase cheia, de não ter tocado a sinfonia nº1 de Bach pra você ouvir, mas fico feliz que você tenha dançado comigo Alceu Valença pela casa, sentindo meu sorriso mais feliz simplesmente porque tu vinhas e eu já escutava todos os teus sinais.

Eu queria ter construído com meu corpo a melhor casa para que você morasse, a melhor obra de arte pra que você despertasse. Domingo às duas da manhã eu queria que o dia viesse logo e a gente se aquietasse na luz pacífica do sol chegando, vencendo mais uma montanha dessas que se erguem em frente a miudeza dos homens. Mas a sua grandeza transpôs a montanha, e do lado de cá, sem muito o que fazer, eu fiquei. Eu e seu pai, que também não pode atravessar a montanha com você.

São agora dez horas e vinte e três minutos e eu acabo de entender um dos milhares de significados da palavra Vazio. Mas acabo de entender também um dos mistérios da nossa existência, e eu não compreenderia jamais se você não tivesse passado correndo pela minha vida, deixando esse silêncio bonito no ar.

São dez horas e vinte e sete minutos. Eu me pergunto quanto tempo demora pra me acostumar com a falta que você me faz. Mas vai Meu Amor, onde você tiver que ir. Eu prometo parar de chorar porque por você eu pararia até de respirar.

Obrigada por ter vindo em meio ao caos do Carnaval que eu pulava, cruzando de São Paulo ao Recife na minha barriga. A casa será sempre sua. Meu corpo é mais forte agora porque você existiu. Minha água é mais profunda porque você mergulhou. E uma hora eu vou parar de contar o tempo, porque na imensidão da sua passagem, eu sei que tanto faz.







domingo, 14 de outubro de 2018

A violência de um contato que não nasce pelos olhos.

Um brinde tão bruto
que quebra
os corpos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sentei-me de frente para a menina que eu era.
Ela não me viu.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Vi uma vez num casarão antigo do Bairro do Ipiranga, uma família (não sei se era uma família) espalhada pelos cômodos, cada qual tocando sua minúscula caixa de música. Os sons se sobrepunham e nenhum fazia sentido. Outras famílias (não sei se eram famílias) assistiam caladas, e um pai (que nunca foi pai) chorava. As caixas de música mal cabiam nos dedos, e só o fato de segurá-la com tanto apego impedia que qualquer outra melodia fosse escutada por quem tocava. Eu me olhei no espelho da sala de estar e fiquei na dúvida se eu era daquela família (não sei se era uma familia). Fui até a cozinha, fitei com dó uma avó que nunca foi avó e me sentei com ela para um café ao som das solidões dos outros (não sei se elas eram dos outros).

terça-feira, 17 de janeiro de 2017



a música cresce e ninguém escuta o que eu digo
a cena confunde e ninguém vê seus pedaços

partidos

eu descrevo os cortes
os golpes fortes
enquanto sorrio

a música cresce e ninguém escuta o que eu digo
eu mostro minhas unhas
e ninguém imagina

o perigo


*Foto: Claudio Higa


Trilogia das Embarcações

( I ) Iniciação

Se vem a onda
Espalham-se os barcos

Na tempestade
Colidem
Afundam
Ressurgem
Mais tarde

E fortes.

Arestas gastas
Depois de beirar

A morte.

Os barcos se olham
Embriagados
Arrastando galhos
Despedaçados
Feito cabelos
Desordenados

Na cara.

Reúnem-se
humildemente
Na orla já calma
A esbarrar os cascos
No oscilar vivo

Das águas.

Os barcos aceitam
Do oceano
A recuada
O caos
E o descanso

Os barcos
Se reconhecem

Pelo balanço.


( II ) Guia abstrato de meditação

Se chega a noite, os barcos ancoram e fecham as pálpebras das janelas. Silenciam e permitem que pelas longas cordas desçam os habitantes sem forma de seus cascos. Os barcos se aquietam para escutar a certeza da âncora ao penetrar o fundo. Permanecem em estado contemplativo para absorver a sabedoria da água. Revivem, amparados pelo sorrir da Lua e pela presença dos outros barcos, suas tempestades mais duras. Compartilham cicatrizes aparentes e por vezes confundem a água que escorre pelas estruturas com as lágrimas que já inundaram tantas vezes seus espaços. Os barcos recolhem seus olhares ao mais profundo que alcançam, porque é lá que descansa a única bússola possível (e quanto mais íntimos estiverem dela, mais poderão se entregar com convicção ao ressurgimento do dia). Os barcos vasculham seus cantos danificados, reparam estragos, guardam a experiência do vento, da chuva, do calor do meio dia. Os barcos sempre voltam a navegar com mais serenidade em suas velas, mas com menos peso nos compartimentos. Ao deixar que o invisível tripulante desça para experimentar o escuro revelador das águas fundas, o barco compreende mais sobre a superfície. (Mas mantendo-o na superfície, ele nada compreende sobre o profundo). Durante o mergulho, o tripulante reconhece algum indício de sua antiga casa. Ele é capaz de sentir o grande conforto de estar imerso, e então pode subir ao barco com mais pistas sobre o caminho. Os barcos recolhem as âncoras, a longa corda volta ao convés e o dia amanhece ao seu tempo. Lentamente os barcos retomam o movimento.


( III ) Lembrete sobre a lei do eterno processo

Um barco retorna ao porto
Como um homem retorna à casa

Eles não podem trazer no corpo
Todo oceano como bagagem

O porto 
É também
Viagem.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Como se livrar de memórias difícies ou Nota sobre o desapego



Teria sido de muita utilidade na minha infância se tivessem os adultos me falado muito menos sobre o tempo. A consciência sobre o tempo atormentou meu caminho. Uma criança não deve temer a passagem do tempo. E também teria sido de extrema importância que não tivessem me levado para brincar no parque num dia em que tudo era absolutamente triste. A contradição desse dia associou uma mancha de tristeza sobre todos as seguintes alegrias que eu ainda encontraria.

Mas visto que nada disso foi feito e que cresci segurando um fio de pipa prestes a se romper ou escapar, considero que a lição mais bonita teria sido justamente aprender a soltá-lo, e que ainda estou em tempo de fazê-lo.

E como passei anos sendo responsável pela linha, esqueci que ela era apenas um brinquedo. Endureci com medo de endurecer. Porque é isso que o medo faz com a gente: Ele pega a coisa e nos aproxima da coisa. Ninguém tem medo de terremoto no Brasil. A gente tem medo é do que pode de fato nos atingir. Pois eu tinha muito medo de embrutecer diante da rigidez do que vinha. Depois, aprendi: Nada existe de mais poderoso do que a suavidade.