Aqui, vinte e uma horas e onze minutos, noite no Oceano Atlântico, eu imagino em que mar distante você já se encontra, e em que forma, e em como estará seu coração, assim como o meu que parece suspenso desde que você foi embora. É possível continuar existindo com o coração parado no tempo, você sabia, Meu Amor? Eu estou. Eu estou existindo.
Aqui, vinte e uma horas e catorze minutos, eu me pergunto em que tempo você está porque tenho a impressão que rapidamente você se deslocou ao futuro enquanto eu permaneci na lentidão estranha do presente quando ele dói. Gostaria de estar cruzando com você nos meus braços, na velocidade da luz, os sistemas todos, os mundos que não conheço, mil e uma vezes ao infinito, porque sei que agora você pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas eu só posso estar em um.
Eu só posso estar aqui.
São vinte e uma horas e vinte e dois minutos e eu imaginei mais uma vez o seu rosto bem perto do meu. Em que momento foi que nos separamos exatamente, Meu Amor? Foi no sobressalto do meu pesadelo, quando acordei com meu próprio pavor e me vi em pé no meio da sala sem saber o por quê? E eu ainda não posso saber.
Você chegou a escutar minha voz te chamando, Meu Amor? Eu chamei você de Meu Amor. Eu queria que você soubesse que eu andava com o cuidado de quem caminha sobre o gelo enquanto você se apoiava sobre mim.
Aqui na Terra, às dez horas e dez minutos, eu lamento não ter tido tempo de te mostrar a Lua quase cheia, de não ter tocado a sinfonia nº1 de Bach pra você ouvir, mas fico feliz que você tenha dançado comigo Alceu Valença pela casa, sentindo meu sorriso mais feliz simplesmente porque tu vinhas e eu já escutava todos os teus sinais.
Eu queria ter construído com meu corpo a melhor casa para que você morasse, a melhor obra de arte pra que você despertasse. Domingo às duas da manhã eu queria que o dia viesse logo e a gente se aquietasse na luz pacífica do sol chegando, vencendo mais uma montanha dessas que se erguem em frente a miudeza dos homens. Mas a sua grandeza transpôs a montanha, e do lado de cá, sem muito o que fazer, eu fiquei. Eu e seu pai, que também não pode atravessar a montanha com você.
São agora dez horas e vinte e três minutos e eu acabo de entender um dos milhares de significados da palavra Vazio. Mas acabo de entender também um dos mistérios da nossa existência, e eu não compreenderia jamais se você não tivesse passado correndo pela minha vida, deixando esse silêncio bonito no ar.
São dez horas e vinte e sete minutos. Eu me pergunto quanto tempo demora pra me acostumar com a falta que você me faz. Mas vai Meu Amor, onde você tiver que ir. Eu prometo parar de chorar porque por você eu pararia até de respirar.
Obrigada por ter vindo em meio ao caos do Carnaval que eu pulava, cruzando de São Paulo ao Recife na minha barriga. A casa será sempre sua. Meu corpo é mais forte agora porque você existiu. Minha água é mais profunda porque você mergulhou. E uma hora eu vou parar de contar o tempo, porque na imensidão da sua passagem, eu sei que tanto faz.



