terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre a obra VOYEUR, de Liliane de Grammont.

Eu olho por uma fresta estreita que quase esbarra no seu meio sorriso. Eu não VEJO que é um meio sorriso; Eu percebo de rabo-de-olho-de-bicho à espreita.

Eu deveria me camuflar por uns instantes, petrificada, que nem o filhote de cobra que não se move e exala aquele cheiro esquisito para fugir da morte. Mas eu escolho uma camuflagem meia-boca porque o predador me interessa. Eu pisco um pouco porque a luz é forte, e um pouco porque me intimido. Eu não sei qual é o cheiro confuso da minha pele.

Depois escurece tanto que é indiferente abrir ou fechar os olhos. A penumbra me deixa em estado de alerta e minha perna escorre.

No cômodo ao lado, como nessas casas noturnas com regras até que rígidas para pessoas flexíveis, não sei se é um búfalo ou um homem aquele bicho que tampa a boca da mulher (ou da fêmea).

Confundo espécies.

Passa por mim uma manada enfurecida, exalando um perfume importado que me lembra vocês. - Todos vocês que vestem camisa mas tem um semblante de quem andaria nu pelo caos da cidade grande, sem perceber que ali não é mais a floresta.

Eu entro na sala restrita. As paredes são de treliça. Sinto que eu sou por um momento esses pássaros que as mães algum dia na nossa infância resgatam, colocam numa caixa e furam as laterais para que eles não morram sem ar. Por esses furinhos que oxigenam, é por onde as crianças espiam o universo do pássaro. É por essa treliça que as pessoas espiam o que eu faço. Eu não sei de novo qual é o cheiro confuso da minha pele, e desta vez, é minha boca que escorre.

Eu me junto à matilha e acelero. Sobra para trás a mais jovem do bando, e lá ela fica, entregue aos homens, aos tubarões, aos olhares, aos arranhões. Mas ela vive.

E depois eu vejo até o fim você fechar a cortina, com a calça caída até os pés, num trote lento e meio desequilibrado, respirando cada vez mais tranquilo...

Lindo como o fim do dia de um cavalo selvagem.






domingo, 3 de agosto de 2014

Travessia

Não posso ser interrompida. Comecei um novo capítulo e preciso ir até o final. Não posso frear uma leitura no meio do seu fluxo. Tudo precisa correr bem. Ninguém pode chamar meu nome durante as páginas seguintes, que eu não olhei quantas são. – Também não posso olhar antes. Preciso desvendar durante.

Começar um capítulo é como uma travessia no mar. Preciso chegar de novo à terra firme, num movimento contínuo. Preciso nadar até o próximo título. É como subir no palco e atuar até o fim. Ler um capítulo é um caminho sem volta. O período entre um capítulo e outro é um tempo de tensão e de presença absoluta. Preciso estar tão imersa que fico desprotegida do que acontece à minha volta. Se eu fosse um outro bicho, estaria vulnerável ao ataque de qualquer predador faminto. 

Por isso gosto de ler sozinha. As chances de sucesso são muito maiores. Por isso prefiro o espetáculo ao ensaio – Ninguém irá parar a música para fazer correções. Não gosto quando me arrancam bruscamente do estado de entrega onde me encontro.

Começar um novo capítulo é como abrir os olhos numa manhã de segunda-feira e saber que tudo precisa seguir o ritmo perfeito até que anoiteça e se deite novamente. Todas as tarefas precisam caber no intervalo exato do dia.

Um livro sem divisão de capítulos seria impossível pra mim. Eu seria obrigada a lê-lo num mergulho só. Nadar, nadar, nadar, quase perdendo o fôlego, até a próxima margem, depois de dar a volta completa ao mundo. Mas eu não conseguiria, e então alguma das partes sairia perdendo: Ou eu, ou a obra.

A mesma coisa acontece quando escrevo. Por isso meus textos são curtos. Eu fico ansiosa com a chegada. Longas distâncias pedem descansos, e eu não sei pausar.

(Aliás, você consegue voltar inteira para um amor que foi cortado ao meio? O amor também tem dessas coisas. Acho até que já terminei um amor por não suportar a angústia de um capítulo tão longo.)