quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

doces laços docentes


Elas entram no palco e eu me vejo. Eu acompanho meu próprio raciocínio – Ele ganha vida.
Eu ouço a música que eu escolhi para ser a voz do que eu sinto. Eu ouço o barulho inconfundível da pele em contato com o solo. O deslize e o peso.
O desenho, as rendas meio maduras, a tristeza embutida.
Eu as vejo e as amo por serem as letras das minhas cartas íntimas. Eu as amo por receberem meus sonhos escondidos e acreditarem neles junto comigo. Eu as amo pela confiança que depositamos umas nas outras, e por vê-las crescendo no mesmo caminho onde aos poucos eu envelheço.
A delicadeza que eu espero do mundo e a angústia de fazer parte dele. A beleza simples de um cabelo feminino ao vento. Tudo isso eu posso ver em questão de minutos. A novidade crua, o olhar de insegurança que escapa. Eu vejo cada falha – minha – por meio delas.
O detalhe dos dedos, minhas mãos tensas aparecem nelas.
Quando me dou conta, passaram-se meses. Passaram-se anos e nós seguimos juntas. Cada uma na sua época, compartilhando alguma coisa importante dos nossos universos.
Dou uma luz fraca no chão negro, e então elas dançam.
Quando acaba eu sinto como se mais uma vez eu tivesse brevemente existido.


(foto: Silvia Machado)

domingo, 7 de novembro de 2010

Espectador de Balneário ou Voyeur dos Anjos

É por volta do meio-dia que a maior quantidade de anjos banha-se no mar. Abandonam as brancas asas na beira das águas, até que se confundam com as rebentações. Acredito que mergulhem profundamente, a terem conversas estritamente femininas com as sereias da Praia Grande.
Os anjos são todos mulheres, de longos cabelos emaranhados belissimamente pelos ares terrestres. Caminham em direção a areia, deixando rastros de perfumes angelicais. As pegadas logo são consumidas pela próxima onda, e ninguém percebe que um pouco mais adiante elas seguem flutuantes.
Banham-se na hora mais quente, porque à noite é preciso que cuidem dos sonhos infantis, docemente disfarçadas de querubins muito puros e muito doces. (Mas eu sei que são todas uns anjos salgados).
Com a chegada da madrugada, dá as caras a Lua refletida nas águas, como a vigiar de perto o balneário que enche os olhos dos homens de desejo. E a imagem da Lua refletida é tão fiel, tão viva... E é tão imenso o azul-escuro que abriga sua circunferência, que peço a Deus que mais tempo no mundo me reste, só para ver que de dia o mar é sempre celeste; e que de noite o céu é mesmo marinho.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Times New Roman

-Eu te amo.
Em fonte padrão, n°12, cor automática.

Em volta do rio

Vamos no contra, no fluxo,

no trânsito do vento.

No nosso tempo, eu e você

No espaço que for justo.

Vamos dividindo os sabores,

os trechos,

os textos,

as dores.

Vamos por terra, contemplando as águas;

chutando as pedras, sujando as barras.

Vamos por onde sabemos respirar.

Eu e você, em volta do rio

- sem alçar vôo e sem mergulhar -.

Pés firmes no solo

concreto.

Discretos,

a contornar.

sábado, 25 de setembro de 2010

Por um amor a grosso modo

Ser comedida
Desejando a imprudência.
Botar-lhe medidas:
Até aqui.
Até ali.
Tatear o tempo da convivência.

Nada disso me apetece.
Quero a deselegância da intimidade.


As Horas

Dias assim foram feitos para corações em paz.
A mansidão de uma digestão leve;
O descansar na rede;
A leitura dedicada.

Corações em paz dão-se ao luxo do tédio;
Dos domingos dentro de casa
E de uma conversa brejeira em plena cidade grande.

Eu os invejo.
Almejo as horas vazias da tarde.
Eu, que tenho um coração aflito.
Eu, que me ocupo de coisas que já foram feitas,
E as refaço.

A aflição me pede volumes mais altos;
Preocupações de gravidade aguda,
E a exaustão física.

Ou então me obriga a ter sono leve.

Tanto os filmes
Como as calçadas
E também a beleza dos finais de tarde
Só foram feitos para os corações em paz.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A ex-mulher do padre

Eu nasci em São Paulo, e aqui você aprende a correr antes mesmo de aprender a caminhar. Aqui você aprende como é digno e necessário trabalhar, mas ninguém te ensina a medida. A única referência que você tem na escola é que são cento e cinqüenta minutos de aula para quinze minutos de intervalo, e que isso é mais do que suficiente para engolir um toddynho e ir ao banheiro. Você entende, portanto, que pausas são para necessidades básicas e nada mais. (E assim você também tem pela primeira vez um contato direto com o conceito de proporção).

E quase tudo nesse ambiente escolar incentiva a competição. Importante é ser o primeiro, o ganhador. A diversão passa a morar um pouco nesse lugar da disputa pelo topo. E qualquer criança sabe, desde sempre, que quem chega por ultimo é a mulher do padre.

As recuperações em matemática reprovam, mas as aulas de educação física e artes, não. E assim você aprende que números são muito mais importantes do que gestos e sons.

Em São Paulo você aprende a olhar muitas vezes para os dois lados antes atravessar – correndo – a rua. Porque você também aprende que não se pode confiar nos outros. Não é inteligente acreditar nas regras simples como as do semáforo, porque leis muito maiores não são cumpridas. Aqui você aprende que a vez é do mais agressivo. Se você é pedestre, a vez é do carro. Se você está no carro, a vez é do caminhão. Se você é um carro preso no trânsito, a vez é do motoqueiro ou a vez é do ladrão. Mas no fundo, no fundo, você sente que nunca chega a sua vez.

Aqui você aprende a ver as horas antes de conferir as estrelas, porque quase nunca se vê o céu. O sol nasce e se põe sem que você se dê conta, porque os escritórios, as empresas e as escolinhas de inglês estão sempre muito bem iluminadas. O importante é não perder de vista os ponteiros, e tanto faz o formato da lua.

Aqui você pode sobreviver perfeitamente pela madrugada. Os estabelecimentos funcionam vinte e quatro horas, porque certamente as pessoas não tem tempo de ir ao mercado. Aliás, ao SUPERmercado, porque nada vale muito em São Paulo se não for super, mega, ultra, top.

Você sempre ouve alguém dizer por aqui que tempo é dinheiro. E talvez por isso, seguindo ao pé da letra, numa ignorância ou numa esperança, você passe a viver sua vida em função de aumentos. E você se orgulha! Você ostenta suas olheiras e sua carga horária enlouquecida de trabalho, como se ainda estivesse lá na gincana da pré-escola, competindo pra ser o que mais acumulou pontos. Mas agora não há uma professora amorosa a dar-lhe um beijo na testa pelo seu grande esforço.

Em São Paulo você aprende que São Paulo é a melhor cidade da América do Sul! (para trabalhar). Mas o parêntese não importa, o legal é estar no ranking.

A vantagem é que então os melhores profissionais devem mesmo estar por aqui, e quando você precisar de um médico ou de um terapeuta é só procurar na lista – no topo dela, é claro, e tentar curar sua úlcera ou a sua depressão.

domingo, 11 de abril de 2010

Sinfonias íntimas

Segredos são desvendados quase em silêncio. Na pele que encosta e dá sinal de que gosta. No olho que fecha, na boca que escancara, no ar que circula entre o lado de dentro e o lado de fora. Segredos são sinfonias íntimas, sem letra, sem canto, sem dicas. Segredos são mudos, discretos e indiscretos. Segredos são quentes. Não se diz como é. Descobre-se. Tenta-se e ele se revela por si só. O corpo denuncia que arde, denuncia que vibra, que morde. O segredo escapa.
As mãos procuram, vasculham. E as mãos não vêem. Elas traduzem. O braile dos poros, dos pêlos, dos pares. O segredo dispara, confunde-se entre o talvez eu morra e talvez eu nasça. O que acontece com o segredo quando o segredo acontece?
Em quanto tempo se aquieta a alma dentro de um corpo que goza? O quanto se dilata sua pupila, seu pulmão, sua mente? Sem entorpecentes, sem álcool, sem anestesia. O quanto você suporta de caos para que então venha a ordem?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

conjunto vazio

Hoje pela tarde todos os casais estavam aos prantos. Todo calor dos dias anteriores; todas as redes para descanso; todos os ventos deixaram lembranças. Todos os beijos se puseram atrás da montanha, e também por isso choravam os casais.
Hoje dormiram cedo e sozinhos os homens das moças. E as moças respiraram fundo procurando o perfume dos homens. As casas silenciaram tristes; nos quartos caíram as temperaturas. Todos os ventiladores foram desligados e todos os sons se fizeram calar - em respeito ao pranto de todos os casais.
Nos quintais não houve tanta conversa; nos fogões, nenhuma panela, e até a lua que andava extravagante, desinibida... (Até a lua!) que vinha se exibindo sem modéstia, recolheu-se. Trajou uma grande sombra, deixando aparecer um cantinho de si vez ou outra, bem discreto, que é por onde espiava a tristeza dos casais.
Se alguém entrasse pela porta, ainda sentiria o vapor do ultimo banho, mas nada haveria além de uma densa solidão. As janelas foram abertas para arejar o amor que ficara. Havia amor acumulado nos cantos, nos quadros, nas mesas. Amor em pó; amor vencido, de ontem, de anteontem, do íntimo passado. Tinham que ser vividos logo depois de abertos... Mas eram tantos! Eram tantos amores que os casais não deram conta. Dormiram um pouco a mais no domingo; estranharam-se um pouco na segunda; e nisso sobrou amor. Amor que tinha que ser constantemente devorado, sem descanso, porque a cada segundo o amor multiplica e passa a ser tão grande que só lhe resta o enterro gélido do desperdício.
Os casais ainda estavam amolecidos de água de mar. A pele ainda estava salgada; os cabelos desordenados pelos ventos indecisos da praia. Os morangos estavam nas compotas, esperando por serem mordidos. Ainda estava tudo recém-deixado-pra-trás. E os casais lamentavam, separados, o tempo reservado ao namoro no sofá que não fora de todo gasto. Os casais estavam saudosos das possibilidades. Mesmo que não fossem despertar com os pássaros para viverem passeios místicos; mesmo que não fossem caminhar até a ponta extrema do Ribeirão da Ilha, mesmo que nada fizessem... Estavam saudosos de poder. Estavam juntos e podiam, diante de todas as cartas, optarem por se afastar da fogueira, da roda, dos presentes, e se amarem num beco qualquer.
Mas hoje já era essa vírgula indesejada, esse soluço, essa fita parada. Os casais estavam suspensos num silêncio inconveniente. Algo semelhante à pausa dos horários políticos. Estavam todos entediados, impacientes e chorosos, esperando que recomeçasse a novela; que as bocas se reencontrassem; que finalmente a angústia acabasse na cara ou na coroa dos aeroportos.
Hoje pela tarde todos os casais estavam aos prantos, de olho nos medidores de saudade. Calendários nas mãos, relógios nos punhos.
Cabe muito amor num intervalo de dois.