Eu nasci em São Paulo, e aqui você aprende a correr antes mesmo de aprender a caminhar. Aqui você aprende como é digno e necessário trabalhar, mas ninguém te ensina a medida. A única referência que você tem na escola é que são cento e cinqüenta minutos de aula para quinze minutos de intervalo, e que isso é mais do que suficiente para engolir um toddynho e ir ao banheiro. Você entende, portanto, que pausas são para necessidades básicas e nada mais. (E assim você também tem pela primeira vez um contato direto com o conceito de proporção).
E quase tudo nesse ambiente escolar incentiva a competição. Importante é ser o primeiro, o ganhador. A diversão passa a morar um pouco nesse lugar da disputa pelo topo. E qualquer criança sabe, desde sempre, que quem chega por ultimo é a mulher do padre.
As recuperações em matemática reprovam, mas as aulas de educação física e artes, não. E assim você aprende que números são muito mais importantes do que gestos e sons.
Em São Paulo você aprende a olhar muitas vezes para os dois lados antes atravessar – correndo – a rua. Porque você também aprende que não se pode confiar nos outros. Não é inteligente acreditar nas regras simples como as do semáforo, porque leis muito maiores não são cumpridas. Aqui você aprende que a vez é do mais agressivo. Se você é pedestre, a vez é do carro. Se você está no carro, a vez é do caminhão. Se você é um carro preso no trânsito, a vez é do motoqueiro ou a vez é do ladrão. Mas no fundo, no fundo, você sente que nunca chega a sua vez.
Aqui você aprende a ver as horas antes de conferir as estrelas, porque quase nunca se vê o céu. O sol nasce e se põe sem que você se dê conta, porque os escritórios, as empresas e as escolinhas de inglês estão sempre muito bem iluminadas. O importante é não perder de vista os ponteiros, e tanto faz o formato da lua.
Aqui você pode sobreviver perfeitamente pela madrugada. Os estabelecimentos funcionam vinte e quatro horas, porque certamente as pessoas não tem tempo de ir ao mercado. Aliás, ao SUPERmercado, porque nada vale muito em São Paulo se não for super, mega, ultra, top.
Você sempre ouve alguém dizer por aqui que tempo é dinheiro. E talvez por isso, seguindo ao pé da letra, numa ignorância ou numa esperança, você passe a viver sua vida em função de aumentos. E você se orgulha! Você ostenta suas olheiras e sua carga horária enlouquecida de trabalho, como se ainda estivesse lá na gincana da pré-escola, competindo pra ser o que mais acumulou pontos. Mas agora não há uma professora amorosa a dar-lhe um beijo na testa pelo seu grande esforço.
Em São Paulo você aprende que São Paulo é a melhor cidade da América do Sul! (para trabalhar). Mas o parêntese não importa, o legal é estar no ranking.
A vantagem é que então os melhores profissionais devem mesmo estar por aqui, e quando você precisar de um médico ou de um terapeuta é só procurar na lista – no topo dela, é claro, e tentar curar sua úlcera ou a sua depressão.