É por volta do meio-dia que a maior quantidade de anjos banha-se no mar. Abandonam as brancas asas na beira das águas, até que se confundam com as rebentações. Acredito que mergulhem profundamente, a terem conversas estritamente femininas com as sereias da Praia Grande.
Os anjos são todos mulheres, de longos cabelos emaranhados belissimamente pelos ares terrestres. Caminham em direção a areia, deixando rastros de perfumes angelicais. As pegadas logo são consumidas pela próxima onda, e ninguém percebe que um pouco mais adiante elas seguem flutuantes.
Banham-se na hora mais quente, porque à noite é preciso que cuidem dos sonhos infantis, docemente disfarçadas de querubins muito puros e muito doces. (Mas eu sei que são todas uns anjos salgados).
Com a chegada da madrugada, dá as caras a Lua refletida nas águas, como a vigiar de perto o balneário que enche os olhos dos homens de desejo. E a imagem da Lua refletida é tão fiel, tão viva... E é tão imenso o azul-escuro que abriga sua circunferência, que peço a Deus que mais tempo no mundo me reste, só para ver que de dia o mar é sempre celeste; e que de noite o céu é mesmo marinho.

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