Porque o meu corpo não estranhou o seu corpo, desde o princípio dos olhos até o desenrolar das línguas;
Porque seu rosto muito próximo ao meu não me causou nem medo, nem dúvida, nem nenhum sinal de pequenos desesperos;
Porque a sua mão me disse, dedo por dedo, que nela caberia meu tronco, braços, pernas e lamentos;
Porque sua boca entreabriu de um jeito e de um tamanho exatos ao entreabrir da minha, e correram vendavais de ida e volta enquanto você me comia;
Porque a sua voz passeou muito suave pelos meus ouvidos, alterando todos os meus sentidos;
Porque ao menor contato da sua pele eu me desfiz em água,
em perfume
e em sentimento
- e deixei que você mergulhasse em apneia, sem saber por quanto tempo;
Porque não houve ruído ao nos depararmos com aquela imensa pedreira, e porque pudemos levantar juntos os olhos humildes diante da Natureza;
Porque os recortes bonitos das suas fotografias me revelaram a sensibilidade com que você via o mundo, e aquelas imagens planas me atraíram - como aquele buraco de Kandinsky - para um passeio muito mais fundo;
E por fim, porque a minha dança naturalmente se desenrolou pelos vãos livres das suas arquiteturas, como se ela pudesse inundar exatamente os recôncavos das suas curvas, foi que eu disse sim - já sentindo que alguma coisa baiana cobria de novidades belas as minhas memórias duras.
(foto: Renan Livi)
(foto: Renan Livi)
