Hoje o café está muito amargo, Ricardo. Acordei indisposta e
feia – espero que não se importe.
Levantei várias vezes durante a noite e voltei a me deitar
um pouco longe de você. Não quis atrapalhar ainda mais seu percurso. Eu tentei driblar
meu mal estar com pensamentos esdrúxulos, mas a superficialidade nunca perdura.
O superficial é sempre muito rápido.
Você chegou a notar a luz da sala acesa? Eu sei que a
claridade te atrapalha o sono... Mas a gente é diferente, e a escuridão me
apavora. Desculpe.
Aliás, hoje a manhã está muito escura. O café está amargo e
a manhã está escura, Ricardo. Não é estranho?
Diga alguma coisa. Seu silêncio me dá calafrios. Eu estou me observando de fora e lembrando daquela nossa última planta que morreu. Aquela planta que não tinha nome. Eu hoje estou parecida com ela. Uns galhos secos e pequenos. Há um resto de vermelho meio desbotado nas pontas das últimas folhas. Eu me sinto murcha, Ricardo.
Você está me olhando com pena e ternura, mas continua
calado. Eu espero que não vá embora. Não vá embora justo hoje que a casa está
tão fria.
A casa está fria, a manhã está escura e o café está muito
amargo.
Eu estou morrendo, Ricardo?
Eu sempre acho que estou. Mas normalmente você mede meu pulso, e então eu percebo que ainda estou viva.
Eu sei, hoje você está muito ocupado e a Amanda está te
irritando. Não há tempo para crises de pânico, eu entendo. A Amanda deveria ser
mais útil.
Eu também tenho um longo dia pela frente, Ricardo. Mande-me alguma palavra de amor pra que eu me sinta melhor, por favor. Eu estou magra. Minhas costelas estão à mostra.
Aliás, hoje meus ossos estão sobressaindo à carne. Reparando
bem, hoje eu estou esquálida, a casa está fria, a manhã está escura e o café
está muito amargo.
Justo o café, que era sempre tão doce.
Eu estou morrendo, Ricardo?

