quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Despedida (Para meu vira-lata Pimpão)

Para onde vão as coisas das quais você gostava? Os cheiros, os sabores, os pavores...
Onde eu guardo suas manias que ficaram? Porque foi-se a vida, mas a matéria é resistente. A matéria se agarra no tapete onde você brincava; no último degrau da escada onde você ficava. A matéria fica na panela meio cheia da sua água; no quintal meio vazio das suas ladradas...
Para onde vão suas histórias? Seu começo, nosso encontro, seus passeios engraçados? Onde foram parar nossos olhares que hoje, subitamente se viram, mas não se cruzaram?
Em que esquina ficaram suas pegadas? As mais rápidas, as corridas... depois as mais fatigadas? Como é que passaram mais depressa os anos que você tinha, do que o tempo que temos nós, seus humanos, amigos, frágeis dependentes da sua presença?
Onde é que vamos depositar nosso afeto descabido, nosso amor imenso e desmedido?
Em que imagem perdeu-se sua vista? O que você mirava, quem procurava, o quanto sofria? Onde é que eu estava nessa hora, que não lhe fiz um carinho na barriga? Quais eram meus horários, minhas pressas, compromissos, que me privaram de mais uns instantes na sua companhia?
O que você me dizia, pela tarde, ao me chamar insistentemente enquanto eu comia? Era fome? Ou era despedida?
Para onde foram as risadas que você provocava? Seu sono menos profundo, sua doçura, sua tranqüilidade? Quem vai ocupar o vazio na entrada da casa, a observar o movimento na rua? Quem vai me receber diariamente, com demonstrações tão infantis e sinceras de felicidade?
Quem vai ocupar o tamanho dos meus braços quando eu quiser um carinho ingênuo e imenso como o que você me dava?
E quando pela madrugada cair uma forte chuva, com o que é devemos nos preocupar? Não precisamos pegar a toalha, abrir as portas, portões, cadeados. Você não vai estar lá.
Para onde foram, meu anjinho, seus brinquedos mais divertidos, que hoje você não quis me mostrar?

sábado, 14 de novembro de 2009

Professorando

A Aika ainda não tem quatro anos. É uma japonesinha miúda que mal fala inglês. Muito menos português. Hoje nós boiamos num lago tranqüilo, e ela se deitou sobra a minha barriga.
Nós não afundamos.

O Pedro é da mesma turma da Aika. As professoras sempre chamam o Pedro de Pêdro HenriquÊ! E ele nem olha. E também não gosta de boiar no lago.
Prefere quando aparece o tubarão.

A Valmira tem seus cinqüenta e poucos anos e já não é mais minha aluna. Telefonou esses dias para me dizer que fez aulas de teatro e se orgulhou de saber determinados movimentos que eu havia ensinado a ela. Ouvi dizer que a Valmira já morou num cemitério, e ela tem um sorriso invejável de tão alegre. Adoro receber suas ligações.

Da ultima vez em que eu vi a Vitória, antes dela se mudar para Minas Gerais, pedi que ela continuasse dançando onde quer que fosse. Os pais reconheciam o talento da filha e garantiram que a incentivariam. Dois anos depois encontrei com ela num shopping em São Paulo. Uma mulherzinha de doze anos, com aparelhos nos dentes e saia curta. Deu-me um abraço feliz e envergonhado. Ela parou de dançar.

A Maria Luiza tinha sete anos quando começou a fazer ballet. Reclamava de dores nos ombros e nas costas. Sugeri a mãe que comprasse um collant maior. Na aula seguinte ela não apareceu. As dores eram da leucemia que logo foi descoberta.
Hoje ela passa muitíssimo bem.

A Daniella estava na primeira série quando a levei para fazer um passeio pela floresta. A princesa enfrentava muitos perigos até chegar ao castelo e encontrar o príncipe. Ainda não achei uma boa resposta para a pergunta da Daniella: Professora, por que eu tenho que fazer tudo isso pra ir até o príncipe e ele não atravessa a floresta pra vir atrás de mim?

A Flávia tem cinco anos e parece comigo. Tem também o mesmo nome que eu. E eu vejo nela a filha que eu quero ter.

O Luiz é um senhor de cabelos brancos. Era colega de sala da Valmira. Um dia ele me fez elogios tão profundos e tão sinceros a respeito do modo como eu ensinava que eu tive a certeza de estar indo para o lugar certo. Ele disse isso olhando tão verdadeiramente nos meus olhos que pela primeira vez eu senti que realmente recebera um elogio.
Eu cresci com os comentários dele e me exigi em dobro daí por diante. Eu precisava ser melhor, por ele.
Por todos eles.

Estagiei durante dois anos numa escola pública, dando aulas de dança contemporânea aos sábados, às oito horas da manhã. Antes que a escola abrisse já estavam todos na porta, aguardando. Ajudavam a afastar as carteiras, a limpar o chão, a bater palmas quando não tínhamos aparelho de som. A disposição deles compensava o meu cansaço. No ultimo dia, pedi que escrevessem as impressões finais de todo trabalho. Eis umas das riquezas que recebi:

Dançar é se livrar do nosso mundo e entrar em outra dimensão. Dançar é minha vida. Vivo em alegria. (Érika, dez anos).

Dançar é precisar um do outro. (Jéssica, doze anos).

Me sinto mais calma. (Alessandra, doze anos).

Dançar pra mim é viver, é fazer dos problemas uma coisa pequena, sem importância. Na hora da dança é só alegria e divertimento. É só se soltar. (Camilinha, onze anos).
A Camilinha chorou quando eu fui embora.
Eu chorei quando a Camilinha ficou.

A Bia foi uma das minhas primeiras alunas. Uma pestinha que reclamava dos alongamentos:
Tia! Eu só tenho seis anos e me dói tudo!(Imagino quando ela tiver oitenta...)

O Diego tinha treze anos e parou de dançar porque precisava trabalhar. Hoje eu sei que tem até filhos...

A Nicole tem dois.
Juliana, seis.
João, quarenta e quatro.
Luiza, dezesseis.
Seu Pedro, 88.
Meu Deus! Eles mal sabem o quanto aprendo só por estar perto deles...

Sua

Espera-me um pouco mais.
Anoiteceu.
Respira sem pressa o ar que antecede a chegada.
Andei a me perfumar mais e minuciosamente
Por sua causa.

Por isso peço que espere.
Fiz questão de determinada hora da noite
E de determinada cor.
É quase amarela a Lua para o nosso encontro.
É tarde o suficiente.

Anoiteceu em mim
A fisionomia sua e os seus beijos.
Amanhã serei menos minha.

Terei esquecido de tudo
E do caminho de volta.
Receba-me, e adivinhe
Se é de flor
Esse perfume.

(E sendo flor,
Despetála-me).

Espera-me um pouco mais.
Anoiteceu.
E amanhã eu serei menos minha.



(foto: Carol Gherardi)

domingo, 1 de novembro de 2009

A Terapia da Estrada Vazia

A terapia da estrada vazia consiste na pura observação das coisas e do tempo das coisas. E também da matéria delas. Consiste em deixar-se sentar à janela do mundo, e calar um momento, perplexo, atento, de olhos transeuntes pelas árvores, pelos morros e pela neblina. O amanhecer da estrada é alaranjado, e passa. As montanhas surgem pequenas, agigantam-se com a sua chegada e se recolhem, tímidas, às suas costas. Nada permanece.

A terapia da estrada vazia permite que enxerguemos a temporalidade da vida. Você não é o mesmo antes e depois do pasto, antes e depois da ponte, dos pássaros, do cachorro morto no canto do asfalto. Sensações invadiram seu corpo, imagens foram registradas, imagens foram resgatadas, seus cabelos mudaram de lugar.

Ninguém chega a lugar nenhum sendo o mesmo da hora da partida. Pessoas passaram por você e outras te acompanharam. A previsão do tempo estava errada. Choveu quando você esperava que o sol ardesse; Esquentou quando você esperava que esfriasse; Um amor acabou quando você acreditava que ele sobrevivesse; Alguém te chamou quando você se acostumava com a saudade. Os vinte e cinco anos te chegaram, a fila andou mais depressa, o verão acabou. O tempo passou diferente do que você imaginava, e mais uma vez a previsão estava errada.

A terapia da estrada vazia consiste nessa grande descoberta. Consiste em aceitar ou, se não aceitar, pelo menos constatar que tudo é passageiro. Consiste num instante de concentração absoluta e solitária; Num encantamento e num silêncio interno. Consiste em ter um segundo dedicado às flores de beira de estrada; ao céu movimentado; à beleza da imensidão e ao abandono dos acostamentos. A terapia da estrada vazia permite que você repare que a estrada nunca está realmente vazia; Você é que calou um momento, perplexo, atento, de olhos transeuntes pelas árvores, pelos morros e pela neblina. Você é que optou por adormecer mais tarde; por viver de passagem; por reparar na distância.

Mas distanciar-se tem suas vantagens. Sentar-se na platéia e olhar de longe para ter a dimensão total do espetáculo. Ver. Assimilar. Concluir. Há paisagens muito esclarecedoras do lado de lá da janela.


*Imagem da estrada de Nunspeet para Valkenberg - Holanda. Uma estrada realmente esclarecedora...

sábado, 31 de outubro de 2009

Scarlet Cardinal

Cuida-me
Como se eu fosse um pouco menos árida.
Pega-me pelos braços com delicadeza
E me escuta.
Ouça os medos dos quais te falo discretamente.

Cuida-me
Como se cuida das tulipas no outono
Para tê-las por perto até a partida do inverno.
Acredite que estamos sempre no mês de Abril.

Olha-me
Como sempre.

Dispa-te também dos seus medos.
Pega na minha mão com mais certeza e menos autoridade.

Acompanho-te livremente - se me quer sua.

Fala-me da saudade
Como uma pedra muito pequena.
Fala-me das dificuldades até,
Se assim prefere.
Mas fala-me.

Cuida-me
Como se cuida das tulipas escarlates no outono.
Aquece-me; Reserva um espaço de Sol;

E me molha.

Justo Agora

Justo agora, quando eu quase me recompunha, me segurava no silêncio que você deixou, me preenchia de manhãs cristalinas e de noites sórdidas, e me envolvia num prazer egocêntrico e necessário, você me aparece. Você e a sua vida desconexa, mais contra-mão do que qualquer coisa que não tenha sentido no mundo. Você e o seu cigarro, o seu sorriso meio de quem andaria descalço por entre discursos solenes; Você e o seu compasso descompassado com o meu. Fora o imprevisível, o surpreendente, o vício de se deslumbrar com todas as coisas, e tudo que me faz ter vontade de voar desordenadamente pelos ares mais frescos e de molhar os cabelos no mar. Justo agora e antes também. Justo amanhã. Justo em mim, em você e no seu medo infantil, no seu instinto meio cru. Mas agora eu me recompunha da embriaguez de nós dois meio colados, meio imantados, meio nus. O porre de saliva de vinho, de brancura de tinto, de boca de boca. O porre de você no final do dia, na madrugada, no despertador. Você, meu horário trocado, meu descaminho, meu tudo por amor. Justo agora que eu ria baixo e me deitava sozinha com as mãos vazias pra não me endiabrar mais pela paixão sua, você me aparece. Você, meu presente mais torto, minha briga, minha queda mais livre. E sem solução você se manda, se reserva do ataque, me despenteia; Você abre uma fresta e me espia. Você me desequilibra e passa. Justo agora que eu me recompunha.


(foto: Caio Haar)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

zoológico humano

Eu as vejo mexendo braços e pernas e imagino tentáculos. Cílios, patas, não sei. Qualquer coisa muito animal.
Bocejam um ar que só de olhar presumo que seja quente. Resmungam a vida, espreguiçam de sono. Eu as vejo e recuo levemente. - Que inútil, eu sou dessa mesma espécie.
Despenteiam-se ao deitar pelo chão e levantam com uma aspecto estranho até que o sangue retome os lugares de sempre. Chamam minha atenção alguns ossos proeminentes, como uma árvore que cresceu apertada pela calçada. De repente saltam raízes tortas por cima do concreto. Uma escápula alada querendo se livrar do peso das costas. É igual. Eu olho e reconheço uma uniformidade assustadora entre tudo que esboça vida.
Umas colunas retas, atrofiadas de sofá. Tentam buscar qualquer movimento, qualquer dobra, uma inclinação. E suam. Parecem pesados rinocerontes, ao mesmo tempo em que aqueles poros transbordados me lembram aglomerados de terra. – Terra úmida, habitada por seres microscópicos, minhocas e sementes.
Coçam os olhos, rangem articulações, emitem sons.
Depois saem com pressa para resolverem assuntos de altíssima importância dos seres humanos. Cruzam-se pela escada e realizam um brevíssimo ritual de passagem: Beijam o ar enquanto encostam somente a face, e seguem rumos opostos, como duas formigas que se tocam no imenso percurso entre o lar e a comida.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O amor das coisas

Eu vinha pela estrada com meu quatro portas um ponto zero, ar condicionado geladinho, o sol estourando lá fora, ouvindo bossa nova, olhando o caminho, o fluxo, pensando nas obrigações, no fim do dia, no repouso antes de começar o próximo... E tudo isso, toda essa rotina é sempre atravessada por pequenas variações de caos, um trânsito maior, um desvio, homens trabalhando para a melhoria da rodovia, uma mercadoria que caiu da caçamba.
Quilômetro quarenta e sete, saída para a Anhanguera, mantive a direita, curva pouco acentuada, Vinicius de Moraes em grandes interpretações seguiam na seqüência das minhas músicas preferidas. Eis que o caminhão na minha frente revela um caixote de papelão rolando por baixo dele, vindo já quase inconsciente na minha direção e eu não desvio por falta de tempo. Passo por cima, o caixote reclama, faz barulho de estrago sem volta, e eu olho pelo retrovisor. Ele cambaleia em alta velocidade, já atropelado novamente pelo carro que vinha atrás, voa um pouco pra cima, um pouco pro lado, um pouco sem vida, e eu o perco de vista.
Mas me doeu o coração. O caixote vinha não sei de onde, carregava não sei o quê, mas tive pena do mesmo jeito que tive pena dos meus brinquedos que ficavam no canto mais esquecido da estante. Uma estranha certeza de que as coisas sentem e também sofrem pelo abandono. O caixote estava franzido como uma testa. Despedaçado, ferido e ignorado.
Morto como um corpo.

Amor Demais - as andorinhas não tem raízes

Espantei a andorinha com meu amor demais. Tratei de pegá-la logo entre as minhas mãos ansiosas. Disse-lhe as coisas mais bonitas entre todas que poderia, enquanto acariciava-lhe o corpinho miúdo com a ponta do dedo indicador. Dei água e calor à andorinha. Espantei-a com meu amor demais. Quis acompanhá-la, mas eu não vôo. Quis niná-la, mas eu não canto. Quis dizer a ela que era pequenina e bela, e que sua liberdade me fascinava, mas diante de tanta beleza e de tanta liberdade, eu me calei enquanto ela já partia para lugares muito mais altos. A moldura azul era exata para o contorno das suas asas. Ao vê-la tão longe e tão leve no espaço, admiti que a largura daquele céu a faria muito mais feliz do que o aconchego terreno dos meus carinhos. Minhas mãos não comportam desapegos tão grandes. - Doeu-me a constatação.
Quis tê-la bebericando água logo aqui ao lado, e fazendo ninhos logo aqui ao lado... Mas espantei a andorinha com meu amor demais. Deveria ter disfarçado o afeto e nunca ter-lhe escrito docilidades. Andorinhas não sabem ler. Sabem, sim, bater as asas para imensidões sem nome. Seguem o vento. Viajam ao sul e voltam na primavera, desmemoriadas. Preferem a brutalidade do céu e a companhia dos bandos. Andorinhas não têm raízes. Quis vínculos estreitos, como há entre os cães e os homens, mas que são impossíveis entre os pássaros e os homens, e também entre os homens e os próprios homens.
Os amáveis sempre perdem.

Bodas de Prata

Ah, pensando bem, São Paulo não é de todo ruim. Eu é que talvez não faça mais o seu tipo. A gente nunca mais cruzou uns olhares instigantes. Eu logo desvio a atenção, jogo na cara de São Paulo todos os seus defeitos, as suas agressividades, as suas acusações injustas. São Paulo sempre diz que a culpa é minha, que não saí de casa mais cedo e que só por isso eu cheguei atrasada. A culpa é minha. Eu que fiz questão de comprar um celular, e só por isso ele foi roubado. São Paulo me acusa de ser nervosa, mas é São Paulo que me provoca! Que me tira do sério, que me sufoca. Vinte e cinco anos juntos... A relação desgasta, a gente carrega umas mágoas, umas coisas mal resolvidas. Eu nunca entendi, por exemplo, porque é que São Paulo não tira férias comigo. Não dá um espaço pra nós dois descansarmos, quietos. A gente não se curte. São Paulo não pára, eu não paro. A gente não se encosta. Mas eu fiz vinte e cinco anos ao lado de São Paulo e refleti sobre essa nossa conturbadíssima história.
Resolvi tirar uma folga e passear por São Paulo. Uma visita breve numa tarde linda de abril. Ouvi com calma seus lamentos; olhei as árvores da praça; compreendi sua impotência diante de tanto peso a ser carregado. Eu não tinha me dado conta, mas São Paulo não está simplesmente ranzinza; está é doente. Sofre de obesidade. Está com um corpo gordo e pesado. Mal consegue se mover. Trabalha sentado, fumando imensos escapamentos dentro da própria casa. São Paulo achou que poderia abrigar o mundo... E não conseguiu. Chora descontroladamente de baixo pra cima, e alaga.
Eu pedi desculpas a São Paulo. Tenho sido ausente e fofoqueira. Conto para todo mundo os seus segredos, as suas vergonhas... Contribuo para a sua decadência moral. São Paulo não me cobrou pelo passeio. Sua praça é pública, seu museu é de graça. Suas artérias são grandes... Só estão entupidas. Mas ainda me levam pra casa.
Para findar nosso encontro, São Paulo beijou-me a face rapidamente para que eu entrasse logo pelo portão. É perigoso ficar na rua até tarde.
São Paulo tem o sono agitado e sofre de bárbaros pesadelos.
Sinto-me solidária à sua dor.

Flor-de-Companhia

E tem flores tão amáveis que merecem uma mulher. Quando abre a moça, o portão, e lá está o arranjo de tulipas, as tulipas pensam: Que linda mulher eu ganhei!
E ambas as partes se lisonjeiam, passando a fazer uma silenciosa companhia diária, umas às outras.

domingo, 25 de outubro de 2009

Hoje não vai dar...

Ohhh... Não me diga! –bocejo-. Certas pessoas me dão preguiça. Não consigo disfarçar uma incrível falta de entusiasmo para dar pulso a uma conversa. Preguiça até de falar dos assuntos que eu gosto. É que o problema definitivamente não é o assunto. Minha cabeça me ocupa com imagens sobrepostas, músicas que me inspiram movimentos, lembranças velhas e recentes, discussões inventadas... ah, já é tanta coisa pra administrar... E ainda existem os chatos! Não, não há vagas para os chatos nos meus serviços mentais. Que pareça egoísmo, mas não há nada mais incômodo do que interromper devaneios para atender um chato. Conversas internas não são desculpas para adiar inconveniências. Não se pode dizer “um momentinho, por favor, estou resolvendo algo seríssimo comigo mesmo”, e fechar os olhos ou se isolar num canto, esboçando expressões. E por quê? Por que se pode dizer “um momentinho, estou no telefone”, mas não se pode ter um momentinho ininterrupto para si mesmo? Quando você estava quase concluindo um pensamento... ou quase sorrindo ao lembrar de uma história... quase... “OLÁ!” – vem o chato. E o chato às vezes fala muito, lamenta muito, reclama muito, detalha muito... e aahhh que sooono. Não me ligue, não me mande correntes de email, não me convide! Eu estou com preguiça de explicar porque eu não vou no aniversário do amigo do amigo do parente distante... Eu estou com preguiça de atender a operadora de celular me oferecendo planos maravilhosos... Eu estou com preguiça de explicar pro banco Itaú que eu não quero fazer um seguro de vida. Eu não quero que limpem meu vidro no semáforo; que me despertem para as palavras de Jesus; que me agendem compromissos inadiáveis. Estou ocupada! É que ninguém vê, mas eu estou ocupada! Estou cheia de assuntos silenciosos... Juro!
Estou gastando muito do meu tempo com cartas de amor.