Eu vinha pela estrada com meu quatro portas um ponto zero, ar condicionado geladinho, o sol estourando lá fora, ouvindo bossa nova, olhando o caminho, o fluxo, pensando nas obrigações, no fim do dia, no repouso antes de começar o próximo... E tudo isso, toda essa rotina é sempre atravessada por pequenas variações de caos, um trânsito maior, um desvio, homens trabalhando para a melhoria da rodovia, uma mercadoria que caiu da caçamba.
Quilômetro quarenta e sete, saída para a Anhanguera, mantive a direita, curva pouco acentuada, Vinicius de Moraes em grandes interpretações seguiam na seqüência das minhas músicas preferidas. Eis que o caminhão na minha frente revela um caixote de papelão rolando por baixo dele, vindo já quase inconsciente na minha direção e eu não desvio por falta de tempo. Passo por cima, o caixote reclama, faz barulho de estrago sem volta, e eu olho pelo retrovisor. Ele cambaleia em alta velocidade, já atropelado novamente pelo carro que vinha atrás, voa um pouco pra cima, um pouco pro lado, um pouco sem vida, e eu o perco de vista.
Mas me doeu o coração. O caixote vinha não sei de onde, carregava não sei o quê, mas tive pena do mesmo jeito que tive pena dos meus brinquedos que ficavam no canto mais esquecido da estante. Uma estranha certeza de que as coisas sentem e também sofrem pelo abandono. O caixote estava franzido como uma testa. Despedaçado, ferido e ignorado.
Morto como um corpo.
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