segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Bodas de Prata

Ah, pensando bem, São Paulo não é de todo ruim. Eu é que talvez não faça mais o seu tipo. A gente nunca mais cruzou uns olhares instigantes. Eu logo desvio a atenção, jogo na cara de São Paulo todos os seus defeitos, as suas agressividades, as suas acusações injustas. São Paulo sempre diz que a culpa é minha, que não saí de casa mais cedo e que só por isso eu cheguei atrasada. A culpa é minha. Eu que fiz questão de comprar um celular, e só por isso ele foi roubado. São Paulo me acusa de ser nervosa, mas é São Paulo que me provoca! Que me tira do sério, que me sufoca. Vinte e cinco anos juntos... A relação desgasta, a gente carrega umas mágoas, umas coisas mal resolvidas. Eu nunca entendi, por exemplo, porque é que São Paulo não tira férias comigo. Não dá um espaço pra nós dois descansarmos, quietos. A gente não se curte. São Paulo não pára, eu não paro. A gente não se encosta. Mas eu fiz vinte e cinco anos ao lado de São Paulo e refleti sobre essa nossa conturbadíssima história.
Resolvi tirar uma folga e passear por São Paulo. Uma visita breve numa tarde linda de abril. Ouvi com calma seus lamentos; olhei as árvores da praça; compreendi sua impotência diante de tanto peso a ser carregado. Eu não tinha me dado conta, mas São Paulo não está simplesmente ranzinza; está é doente. Sofre de obesidade. Está com um corpo gordo e pesado. Mal consegue se mover. Trabalha sentado, fumando imensos escapamentos dentro da própria casa. São Paulo achou que poderia abrigar o mundo... E não conseguiu. Chora descontroladamente de baixo pra cima, e alaga.
Eu pedi desculpas a São Paulo. Tenho sido ausente e fofoqueira. Conto para todo mundo os seus segredos, as suas vergonhas... Contribuo para a sua decadência moral. São Paulo não me cobrou pelo passeio. Sua praça é pública, seu museu é de graça. Suas artérias são grandes... Só estão entupidas. Mas ainda me levam pra casa.
Para findar nosso encontro, São Paulo beijou-me a face rapidamente para que eu entrasse logo pelo portão. É perigoso ficar na rua até tarde.
São Paulo tem o sono agitado e sofre de bárbaros pesadelos.
Sinto-me solidária à sua dor.

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