sábado, 31 de outubro de 2009

Justo Agora

Justo agora, quando eu quase me recompunha, me segurava no silêncio que você deixou, me preenchia de manhãs cristalinas e de noites sórdidas, e me envolvia num prazer egocêntrico e necessário, você me aparece. Você e a sua vida desconexa, mais contra-mão do que qualquer coisa que não tenha sentido no mundo. Você e o seu cigarro, o seu sorriso meio de quem andaria descalço por entre discursos solenes; Você e o seu compasso descompassado com o meu. Fora o imprevisível, o surpreendente, o vício de se deslumbrar com todas as coisas, e tudo que me faz ter vontade de voar desordenadamente pelos ares mais frescos e de molhar os cabelos no mar. Justo agora e antes também. Justo amanhã. Justo em mim, em você e no seu medo infantil, no seu instinto meio cru. Mas agora eu me recompunha da embriaguez de nós dois meio colados, meio imantados, meio nus. O porre de saliva de vinho, de brancura de tinto, de boca de boca. O porre de você no final do dia, na madrugada, no despertador. Você, meu horário trocado, meu descaminho, meu tudo por amor. Justo agora que eu ria baixo e me deitava sozinha com as mãos vazias pra não me endiabrar mais pela paixão sua, você me aparece. Você, meu presente mais torto, minha briga, minha queda mais livre. E sem solução você se manda, se reserva do ataque, me despenteia; Você abre uma fresta e me espia. Você me desequilibra e passa. Justo agora que eu me recompunha.


(foto: Caio Haar)

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