terça-feira, 27 de outubro de 2009

zoológico humano

Eu as vejo mexendo braços e pernas e imagino tentáculos. Cílios, patas, não sei. Qualquer coisa muito animal.
Bocejam um ar que só de olhar presumo que seja quente. Resmungam a vida, espreguiçam de sono. Eu as vejo e recuo levemente. - Que inútil, eu sou dessa mesma espécie.
Despenteiam-se ao deitar pelo chão e levantam com uma aspecto estranho até que o sangue retome os lugares de sempre. Chamam minha atenção alguns ossos proeminentes, como uma árvore que cresceu apertada pela calçada. De repente saltam raízes tortas por cima do concreto. Uma escápula alada querendo se livrar do peso das costas. É igual. Eu olho e reconheço uma uniformidade assustadora entre tudo que esboça vida.
Umas colunas retas, atrofiadas de sofá. Tentam buscar qualquer movimento, qualquer dobra, uma inclinação. E suam. Parecem pesados rinocerontes, ao mesmo tempo em que aqueles poros transbordados me lembram aglomerados de terra. – Terra úmida, habitada por seres microscópicos, minhocas e sementes.
Coçam os olhos, rangem articulações, emitem sons.
Depois saem com pressa para resolverem assuntos de altíssima importância dos seres humanos. Cruzam-se pela escada e realizam um brevíssimo ritual de passagem: Beijam o ar enquanto encostam somente a face, e seguem rumos opostos, como duas formigas que se tocam no imenso percurso entre o lar e a comida.

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