segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Amor Demais - as andorinhas não tem raízes

Espantei a andorinha com meu amor demais. Tratei de pegá-la logo entre as minhas mãos ansiosas. Disse-lhe as coisas mais bonitas entre todas que poderia, enquanto acariciava-lhe o corpinho miúdo com a ponta do dedo indicador. Dei água e calor à andorinha. Espantei-a com meu amor demais. Quis acompanhá-la, mas eu não vôo. Quis niná-la, mas eu não canto. Quis dizer a ela que era pequenina e bela, e que sua liberdade me fascinava, mas diante de tanta beleza e de tanta liberdade, eu me calei enquanto ela já partia para lugares muito mais altos. A moldura azul era exata para o contorno das suas asas. Ao vê-la tão longe e tão leve no espaço, admiti que a largura daquele céu a faria muito mais feliz do que o aconchego terreno dos meus carinhos. Minhas mãos não comportam desapegos tão grandes. - Doeu-me a constatação.
Quis tê-la bebericando água logo aqui ao lado, e fazendo ninhos logo aqui ao lado... Mas espantei a andorinha com meu amor demais. Deveria ter disfarçado o afeto e nunca ter-lhe escrito docilidades. Andorinhas não sabem ler. Sabem, sim, bater as asas para imensidões sem nome. Seguem o vento. Viajam ao sul e voltam na primavera, desmemoriadas. Preferem a brutalidade do céu e a companhia dos bandos. Andorinhas não têm raízes. Quis vínculos estreitos, como há entre os cães e os homens, mas que são impossíveis entre os pássaros e os homens, e também entre os homens e os próprios homens.
Os amáveis sempre perdem.

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