Não posso ser interrompida.
Comecei um novo capítulo e preciso ir até o final. Não posso frear uma leitura
no meio do seu fluxo. Tudo precisa
correr bem. Ninguém pode chamar meu nome durante as páginas seguintes, que eu
não olhei quantas são. – Também não posso olhar antes. Preciso desvendar
durante.
Começar um capítulo é como uma
travessia no mar. Preciso chegar de novo à terra firme, num movimento contínuo.
Preciso nadar até o próximo título. É como subir no palco e atuar até o fim.
Ler um capítulo é um caminho sem volta. O período entre um capítulo e outro é um tempo de tensão e de presença absoluta. Preciso estar tão imersa que fico desprotegida do que acontece à minha volta. Se eu fosse um outro bicho, estaria vulnerável ao ataque de qualquer predador faminto.
Por isso gosto de ler sozinha. As
chances de sucesso são muito maiores. Por isso prefiro o espetáculo ao ensaio –
Ninguém irá parar a música para fazer correções. Não gosto quando me arrancam
bruscamente do estado de entrega onde me encontro.
Começar um novo capítulo é como
abrir os olhos numa manhã de segunda-feira e saber que tudo precisa seguir o
ritmo perfeito até que anoiteça e se deite novamente. Todas as tarefas precisam
caber no intervalo exato do dia.
Um livro sem divisão de capítulos
seria impossível pra mim. Eu seria obrigada a lê-lo num mergulho só. Nadar,
nadar, nadar, quase perdendo o fôlego, até a próxima margem, depois de dar a volta
completa ao mundo. Mas eu não conseguiria, e então alguma das partes sairia perdendo: Ou eu, ou a obra.
A mesma coisa acontece quando
escrevo. Por isso meus textos são curtos. Eu fico ansiosa com a chegada. Longas
distâncias pedem descansos, e eu não sei pausar.
(Aliás, você consegue voltar
inteira para um amor que foi cortado ao meio? O amor também tem dessas coisas. Acho até que já terminei um amor por não suportar a angústia de um capítulo tão longo.)

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