Porto Alegre tem no ar uma lembrança de praia. Mas você chega bem perto e percebe que é doce. É doce a água, a melodia, o pôr do sol mais horizontal que eu já vi. Acho que vem do Guaíba a doçura de Porto Alegre.
E lá tem o suspiro eterno de Mario Quintana. O ultimo. Batendo como brisa no rosto das pessoas. Logo ao botar os pés na calçada do centro a falta de rima da sua poesia roça com brandura as bochechas de quem chega. E isso deve ser inevitável.
Corta Porto Alegre, de ponta a ponta, uma passarela invisível onde desfilam anjos e misses. Eles, despretensiosos; Elas seguem elegantemente. Isso dá a paz e a beleza desse lugar que me pede um café preto às cinco horas da tarde. Sob a passarela transitam os carros, os ambulantes da feira, os espíritos dos soldados mortos. E tudo, tudo isso é dança, porque lá no sul canta-se quando fala. E não há cidade que se aquiete completamente, em hora alguma do dia, nunca. Lá pela madrugada, às três ou às quatro da manhã, se acontece de morrer um gato no asfalto, virar de lado uma guria na cama, acender um cigarro o boêmio na praça, é dança. É dança porque em algum ponto da zona sul ainda conversam duas amigas adolescentes, e chega pela estrada um filho que retorna ao lar, ou um amante e sua amada. E todos eles falam. Crescem a voz e desmancham no meio, para logo em seguida surpreenderem meus ouvidos paulistas com um novo acento. É assim a música de Porto Alegre, um vôo e um declive; uma onda do mar que eles não têm.
Fora que, se um gaúcho olha bem nos seus olhos e se refere a você como tu, não há escapatória. Porque você é um chamamento disperso; não vai na direção exata da mesma forma que vai o tu, direto e duro como uma flecha.
Eu fui a Porto Alegre e vi as velhas árvores guardando segredos; mudas e trancafiadas, de olhos fechados orgulhosamente por serem detentoras de histórias que ninguém mais viu. As árvores de lá parecem ter mais segredos do que as árvores daqui... Talvez porque desde sempre elas tenham respirado a mesma falta de rima de Mário Quintana. E debaixo de cada árvore dessas eu vi um vulto de casal aos beijos, usando a sombra para refrescar a ardência, porque em Porto Alegre também faz muito calor.
Quase tão antiga quanto às árvores é a arquitetura que cede - com 90% de maturidade e 10% de ciúmes - o espaço para as novas tendências. Mas no fundo também as construções sabem que serão eternamente admiradas por turistas que não têm os olhos acostumados de quem sempre morou por lá; e que serão também sempre muito respeitadas pelos edifícios modernos, absolutamente mais retos e cheio de elevadores, mas que não passam de curumins descobrindo a aldeia.
Porto Alegre tem um porto, e um porto torna qualquer cidade mais generosa. Há mais troca com o mundo, e o movimento das idas e vindas é um estudo ao desapego.
E além de tudo, de toda a vista e de toda aquarela no céu dos finais de tarde, Porto Alegre passou a ser para mim um lugar de amor; Uma grande cama onde se deita e dorme-se até a hora do almoço servido em algum casarão discreto onde vivem avós; Uma sala de bailes e reuniões onde, repentinamente, cruzam-se os olhares de um homem e de uma mulher. E este homem, cuja boca parece ter sido roubada de um dos quadros expostos no salão, canta, sem saber que canta, as palavras que dirige a ela. E a mulher, por sua vez, logo descobre que resistir aos encantos de Porto Alegre seria tão inútil quanto construir um muro para impedir o avanço das águas. Essa mulher é a mesma que muito antes de tal acontecimento, imaginou Porto Alegre como o cenário exato para o repouso do coração.
E lá tem o suspiro eterno de Mario Quintana. O ultimo. Batendo como brisa no rosto das pessoas. Logo ao botar os pés na calçada do centro a falta de rima da sua poesia roça com brandura as bochechas de quem chega. E isso deve ser inevitável.
Corta Porto Alegre, de ponta a ponta, uma passarela invisível onde desfilam anjos e misses. Eles, despretensiosos; Elas seguem elegantemente. Isso dá a paz e a beleza desse lugar que me pede um café preto às cinco horas da tarde. Sob a passarela transitam os carros, os ambulantes da feira, os espíritos dos soldados mortos. E tudo, tudo isso é dança, porque lá no sul canta-se quando fala. E não há cidade que se aquiete completamente, em hora alguma do dia, nunca. Lá pela madrugada, às três ou às quatro da manhã, se acontece de morrer um gato no asfalto, virar de lado uma guria na cama, acender um cigarro o boêmio na praça, é dança. É dança porque em algum ponto da zona sul ainda conversam duas amigas adolescentes, e chega pela estrada um filho que retorna ao lar, ou um amante e sua amada. E todos eles falam. Crescem a voz e desmancham no meio, para logo em seguida surpreenderem meus ouvidos paulistas com um novo acento. É assim a música de Porto Alegre, um vôo e um declive; uma onda do mar que eles não têm.
Fora que, se um gaúcho olha bem nos seus olhos e se refere a você como tu, não há escapatória. Porque você é um chamamento disperso; não vai na direção exata da mesma forma que vai o tu, direto e duro como uma flecha.
Eu fui a Porto Alegre e vi as velhas árvores guardando segredos; mudas e trancafiadas, de olhos fechados orgulhosamente por serem detentoras de histórias que ninguém mais viu. As árvores de lá parecem ter mais segredos do que as árvores daqui... Talvez porque desde sempre elas tenham respirado a mesma falta de rima de Mário Quintana. E debaixo de cada árvore dessas eu vi um vulto de casal aos beijos, usando a sombra para refrescar a ardência, porque em Porto Alegre também faz muito calor.
Quase tão antiga quanto às árvores é a arquitetura que cede - com 90% de maturidade e 10% de ciúmes - o espaço para as novas tendências. Mas no fundo também as construções sabem que serão eternamente admiradas por turistas que não têm os olhos acostumados de quem sempre morou por lá; e que serão também sempre muito respeitadas pelos edifícios modernos, absolutamente mais retos e cheio de elevadores, mas que não passam de curumins descobrindo a aldeia.
Porto Alegre tem um porto, e um porto torna qualquer cidade mais generosa. Há mais troca com o mundo, e o movimento das idas e vindas é um estudo ao desapego.
E além de tudo, de toda a vista e de toda aquarela no céu dos finais de tarde, Porto Alegre passou a ser para mim um lugar de amor; Uma grande cama onde se deita e dorme-se até a hora do almoço servido em algum casarão discreto onde vivem avós; Uma sala de bailes e reuniões onde, repentinamente, cruzam-se os olhares de um homem e de uma mulher. E este homem, cuja boca parece ter sido roubada de um dos quadros expostos no salão, canta, sem saber que canta, as palavras que dirige a ela. E a mulher, por sua vez, logo descobre que resistir aos encantos de Porto Alegre seria tão inútil quanto construir um muro para impedir o avanço das águas. Essa mulher é a mesma que muito antes de tal acontecimento, imaginou Porto Alegre como o cenário exato para o repouso do coração.
Essa mulher sou eu.

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