A Aika ainda não tem quatro anos. É uma japonesinha miúda que mal fala inglês. Muito menos português. Hoje nós boiamos num lago tranqüilo, e ela se deitou sobra a minha barriga.
Nós não afundamos.
O Pedro é da mesma turma da Aika. As professoras sempre chamam o Pedro de Pêdro HenriquÊ! E ele nem olha. E também não gosta de boiar no lago.
Prefere quando aparece o tubarão.
A Valmira tem seus cinqüenta e poucos anos e já não é mais minha aluna. Telefonou esses dias para me dizer que fez aulas de teatro e se orgulhou de saber determinados movimentos que eu havia ensinado a ela. Ouvi dizer que a Valmira já morou num cemitério, e ela tem um sorriso invejável de tão alegre. Adoro receber suas ligações.
Da ultima vez em que eu vi a Vitória, antes dela se mudar para Minas Gerais, pedi que ela continuasse dançando onde quer que fosse. Os pais reconheciam o talento da filha e garantiram que a incentivariam. Dois anos depois encontrei com ela num shopping em São Paulo. Uma mulherzinha de doze anos, com aparelhos nos dentes e saia curta. Deu-me um abraço feliz e envergonhado. Ela parou de dançar.
A Maria Luiza tinha sete anos quando começou a fazer ballet. Reclamava de dores nos ombros e nas costas. Sugeri a mãe que comprasse um collant maior. Na aula seguinte ela não apareceu. As dores eram da leucemia que logo foi descoberta.
Hoje ela passa muitíssimo bem.
A Daniella estava na primeira série quando a levei para fazer um passeio pela floresta. A princesa enfrentava muitos perigos até chegar ao castelo e encontrar o príncipe. Ainda não achei uma boa resposta para a pergunta da Daniella: Professora, por que eu tenho que fazer tudo isso pra ir até o príncipe e ele não atravessa a floresta pra vir atrás de mim?
A Flávia tem cinco anos e parece comigo. Tem também o mesmo nome que eu. E eu vejo nela a filha que eu quero ter.
O Luiz é um senhor de cabelos brancos. Era colega de sala da Valmira. Um dia ele me fez elogios tão profundos e tão sinceros a respeito do modo como eu ensinava que eu tive a certeza de estar indo para o lugar certo. Ele disse isso olhando tão verdadeiramente nos meus olhos que pela primeira vez eu senti que realmente recebera um elogio.
Eu cresci com os comentários dele e me exigi em dobro daí por diante. Eu precisava ser melhor, por ele.
Por todos eles.
Estagiei durante dois anos numa escola pública, dando aulas de dança contemporânea aos sábados, às oito horas da manhã. Antes que a escola abrisse já estavam todos na porta, aguardando. Ajudavam a afastar as carteiras, a limpar o chão, a bater palmas quando não tínhamos aparelho de som. A disposição deles compensava o meu cansaço. No ultimo dia, pedi que escrevessem as impressões finais de todo trabalho. Eis umas das riquezas que recebi:
Dançar é se livrar do nosso mundo e entrar em outra dimensão. Dançar é minha vida. Vivo em alegria. (Érika, dez anos).
Dançar é precisar um do outro. (Jéssica, doze anos).
Me sinto mais calma. (Alessandra, doze anos).
Dançar pra mim é viver, é fazer dos problemas uma coisa pequena, sem importância. Na hora da dança é só alegria e divertimento. É só se soltar. (Camilinha, onze anos).
A Camilinha chorou quando eu fui embora.
Eu chorei quando a Camilinha ficou.
A Bia foi uma das minhas primeiras alunas. Uma pestinha que reclamava dos alongamentos:
Tia! Eu só tenho seis anos e me dói tudo!(Imagino quando ela tiver oitenta...)
O Diego tinha treze anos e parou de dançar porque precisava trabalhar. Hoje eu sei que tem até filhos...
A Nicole tem dois.
Juliana, seis.
João, quarenta e quatro.
Luiza, dezesseis.
Seu Pedro, 88.
Meu Deus! Eles mal sabem o quanto aprendo só por estar perto deles...
Nós não afundamos.
O Pedro é da mesma turma da Aika. As professoras sempre chamam o Pedro de Pêdro HenriquÊ! E ele nem olha. E também não gosta de boiar no lago.
Prefere quando aparece o tubarão.
A Valmira tem seus cinqüenta e poucos anos e já não é mais minha aluna. Telefonou esses dias para me dizer que fez aulas de teatro e se orgulhou de saber determinados movimentos que eu havia ensinado a ela. Ouvi dizer que a Valmira já morou num cemitério, e ela tem um sorriso invejável de tão alegre. Adoro receber suas ligações.
Da ultima vez em que eu vi a Vitória, antes dela se mudar para Minas Gerais, pedi que ela continuasse dançando onde quer que fosse. Os pais reconheciam o talento da filha e garantiram que a incentivariam. Dois anos depois encontrei com ela num shopping em São Paulo. Uma mulherzinha de doze anos, com aparelhos nos dentes e saia curta. Deu-me um abraço feliz e envergonhado. Ela parou de dançar.
A Maria Luiza tinha sete anos quando começou a fazer ballet. Reclamava de dores nos ombros e nas costas. Sugeri a mãe que comprasse um collant maior. Na aula seguinte ela não apareceu. As dores eram da leucemia que logo foi descoberta.
Hoje ela passa muitíssimo bem.
A Daniella estava na primeira série quando a levei para fazer um passeio pela floresta. A princesa enfrentava muitos perigos até chegar ao castelo e encontrar o príncipe. Ainda não achei uma boa resposta para a pergunta da Daniella: Professora, por que eu tenho que fazer tudo isso pra ir até o príncipe e ele não atravessa a floresta pra vir atrás de mim?
A Flávia tem cinco anos e parece comigo. Tem também o mesmo nome que eu. E eu vejo nela a filha que eu quero ter.
O Luiz é um senhor de cabelos brancos. Era colega de sala da Valmira. Um dia ele me fez elogios tão profundos e tão sinceros a respeito do modo como eu ensinava que eu tive a certeza de estar indo para o lugar certo. Ele disse isso olhando tão verdadeiramente nos meus olhos que pela primeira vez eu senti que realmente recebera um elogio.
Eu cresci com os comentários dele e me exigi em dobro daí por diante. Eu precisava ser melhor, por ele.
Por todos eles.
Estagiei durante dois anos numa escola pública, dando aulas de dança contemporânea aos sábados, às oito horas da manhã. Antes que a escola abrisse já estavam todos na porta, aguardando. Ajudavam a afastar as carteiras, a limpar o chão, a bater palmas quando não tínhamos aparelho de som. A disposição deles compensava o meu cansaço. No ultimo dia, pedi que escrevessem as impressões finais de todo trabalho. Eis umas das riquezas que recebi:
Dançar é se livrar do nosso mundo e entrar em outra dimensão. Dançar é minha vida. Vivo em alegria. (Érika, dez anos).
Dançar é precisar um do outro. (Jéssica, doze anos).
Me sinto mais calma. (Alessandra, doze anos).
Dançar pra mim é viver, é fazer dos problemas uma coisa pequena, sem importância. Na hora da dança é só alegria e divertimento. É só se soltar. (Camilinha, onze anos).
A Camilinha chorou quando eu fui embora.
Eu chorei quando a Camilinha ficou.
A Bia foi uma das minhas primeiras alunas. Uma pestinha que reclamava dos alongamentos:
Tia! Eu só tenho seis anos e me dói tudo!(Imagino quando ela tiver oitenta...)
O Diego tinha treze anos e parou de dançar porque precisava trabalhar. Hoje eu sei que tem até filhos...
A Nicole tem dois.
Juliana, seis.
João, quarenta e quatro.
Luiza, dezesseis.
Seu Pedro, 88.
Meu Deus! Eles mal sabem o quanto aprendo só por estar perto deles...
entendo bem você filha. Essa é a alma do educador que se alimenta da riqueza da troca entre os seres, da beleza que existe em aprender e ensinar, em ensinar e aprender constantemente, é ir além das palavras faladas e escritas, é ouvir o coração de quem compartilha a vida com você.
ResponderExcluirmamãe