Eu olho por uma fresta estreita que quase esbarra no seu
meio sorriso. Eu não VEJO que é um meio sorriso; Eu percebo de rabo-de-olho-de-bicho
à espreita.
Eu deveria me camuflar por uns instantes, petrificada, que
nem o filhote de cobra que não se move e exala aquele cheiro esquisito para
fugir da morte. Mas eu escolho uma camuflagem meia-boca porque o predador me
interessa. Eu pisco um pouco porque a luz é forte, e um pouco porque me
intimido. Eu não sei qual é o cheiro confuso da minha pele.
Depois escurece tanto que é indiferente abrir ou fechar os
olhos. A penumbra me deixa em estado de alerta e minha perna escorre.
No cômodo ao lado, como nessas casas noturnas com regras até
que rígidas para pessoas flexíveis, não sei se é um búfalo ou um homem aquele
bicho que tampa a boca da mulher (ou da fêmea).
Confundo espécies.
Passa por mim uma manada enfurecida, exalando um perfume
importado que me lembra vocês. - Todos vocês que vestem camisa mas tem um
semblante de quem andaria nu pelo caos da cidade grande, sem perceber que ali
não é mais a floresta.
Eu entro na sala restrita. As paredes são de treliça. Sinto
que eu sou por um momento esses pássaros que as mães algum dia na nossa
infância resgatam, colocam numa caixa e furam as laterais para que eles não morram sem ar. Por esses furinhos que oxigenam, é por onde as crianças
espiam o universo do pássaro. É por essa treliça que as pessoas espiam o que eu
faço. Eu não sei de novo qual é o cheiro confuso da minha pele, e desta vez, é
minha boca que escorre.
Eu me junto à matilha e acelero. Sobra para trás a mais jovem do bando, e lá ela fica,
entregue aos homens, aos tubarões, aos olhares, aos arranhões. Mas ela vive.
E depois eu vejo até o
fim você fechar a cortina, com a calça caída até os pés, num trote lento e meio
desequilibrado, respirando cada vez mais tranquilo...
Lindo como o fim do dia de um cavalo selvagem.

Lindíssimo! É um texto de entrada ou um texto sobre o que você sentiu no espetáculo?
ResponderExcluirÉ um texto sobre como eu vivi esse espetáculo...
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