Se um dia você notar que a memória me falha, senta ao meu lado e lembra comigo este verão que passa. Quando chegar agosto ou setembro e o cansaço ganhar espaço, chega bem perto de mim e conte no meu ouvido os detalhes: Os homens rindo em completa irmandade; as folhas caindo pelo vento da tarde; o barulho gravíssimo da água na beira da praia.
Fala do percurso alegre entre o verde e a casa; da esquina à esquerda, da esquina à direita; e do cão mais bravo do bairro. E depois lembre comigo o fogo alto no jardim assando infindáveis churrascos gaúchos, quando nos servimos todos no mesmo prato. Canta pra mim a música que toca mais baixa para não despertar as novas crianças da família. Marília, Marina e os gêmeos – os gênios que tudo observam e que diante de tanto, se calam.
Se por acaso eu andar meio esquecida, de tanto trabalho ou pelo avanço da idade, conte-me baixinho sobre cada um desses detalhes. O frescor da areia no caminho das sombras e a ardência insuportável do meio-dia. Chame minha atenção ao falar da porta destrancada para que os amigos transitem sempre em liberdade. E pode falar também da cachaça, da cerveja, do espumante nas taças para as mulheres da casa; dos cigarros de palha para mudar os hálitos dos hábitos de sempre; e dos gemidos abafados da gente.
Se a dureza da cidade voltar a franzir os meus ânimos e enrijecer minha alma, lembra comigo destas férias na praia. O azul claro e abençoado da ilha; os cardumes acelerados; os beijos salgados interrompidos pelas ondas aflitas.
Não me deixe esquecer do ruído bravo da cachoeira, quando meus ouvidos se acostumarem novamente ao massacre sonoro das avenidas. Não me deixe esquecer da velocidade do barco, do tempero dos pratos, do horizonte aberto – tão diferente dos meus prédios altos...
Ah! E não me deixe esquecer dos quatis! Eu quero lembrar para sempre dos quatis! – Aqueles bichos do mato foram o mais perto que eu cheguei de uma vida selvagem...
Flavinha que coisa mais linda! Muito emocionante a maneira como vc viu estes dias, e parte das nossas vida. Beijos no coração.
ResponderExcluirCris